Sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 30 de outubro de 2026
Os Estados Unidos cancelaram os planos de realizar a tradicional foto em grupo dos ministros das Relações Exteriores do G20, após diplomatas europeus se recusarem a posar ao lado do chanceler russo, Sergei Lavrov, e ameaçarem abandonar a sessão de fotos. A decisão, tomada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, expôs as profundas divergências entre as maiores economias do mundo, reunidas nesta sexta-feira e no sábado, em Atlanta, para discutir crises internacionais que ameaçam a segurança e o comércio globais.
Segundo autoridades ouvidas, Rubio decidiu cancelar a fotografia na quinta, após concluir que a controvérsia desviaria a atenção dos debates. A presença de Lavrov provocou desconforto entre aliados ocidentais dos EUA, sobretudo diante da intensificação dos ataques russos contra a Ucrânia. Alguns integrantes do G20 já haviam manifestado preocupação com o convite feito a Moscou, em meio às dificuldades para alcançar um consenso sobre a guerra.
Além do conflito entre Rússia e Ucrânia, as discussões são marcadas por divergências sobre a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, as tarifas comerciais americanas e as ações de Pequim no Mar do Sul da China — questões que contribuíram para aumentos expressivos nos preços globais dos combustíveis e ampliaram as incertezas sobre o comércio. Diante das diferenças entre os países, são consideradas pequenas as chances de que ocorra um entendimento sobre os temas mais controversos.
De acordo com autoridades americanas, a prioridade de Washington é superar divergências relacionadas à liberdade de navegação, particularmente no Estreito de Ormuz, no Mar Vermelho, no Mar Negro e no Mar do Sul da China. As discussões incluem as tensões com o Irã, a guerra na Ucrânia e as relações da China com vizinhos. A delegação chinesa é chefiada por um vice-ministro das Relações Exteriores, enquanto a maioria dos países enviou seus principais diplomatas.
A possibilidade de uma nova intervenção militar americana no Irã também paira sobre o encontro, provocando apreensão entre países do Oriente Médio, incluindo a Arábia Saudita, integrante do G20.
Desconforto entre aliados
A participação de Lavrov ocorre em um momento de deterioração das relações entre Washington e Kiev, depois que Trump suspendeu novas sanções contra Moscou e limitou temporariamente a assistência logística e de inteligência à Ucrânia.
O encontro prepara o terreno para a cúpula de líderes do grupo, prevista para dezembro, no clube de golfe do presidente Donald Trump, em Miami. Ainda não está claro se o presidente russo, Vladimir Putin, aceitará o convite para participar da cúpula de dezembro, mas a possibilidade já provoca desconforto entre aliados europeus dos EUA.
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia relatou dificuldades para conseguir vistos para os integrantes de sua delegação. Segundo a porta-voz da pasta, Maria Zakharova, os obstáculos criaram a impressão de que “nem todos em Washington estão satisfeitos” com a participação de Lavrov. Ela destacou, porém, que o chanceler aproveitará o encontro para defender a “reforma rápida das instituições econômicas globais”.
Lavrov raramente viajou a países integrantes da Otan desde a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, e a imposição de sanções contra Moscou. Para Ian Kelly, ex-embaixador americano na Geórgia durante o primeiro mandato de Trump (2017-2021), sua presença em Atlanta pode provocar problemas políticos internos para o presidente, a poucos dias das eleições legislativas de meio de mandato, além de aprofundar as tensões entre os participantes ocidentais do G20.
(Com O Globo)