Quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Lula vai ter de lidar com os problemas na economia que ele mesmo criou

Reeleito presidente da República com mais de 64 milhões de votos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá de enfrentar o aumento do endividamento público e a pressão sobre as contas do governo. A dívida do governo geral passou de 71,68% do Produto Interno Bruto (PIB), em dezembro de 2022, para 82,87% em agosto de 2026, último dado disponível. O cenário exigirá medidas para conter as despesas e evitar o agravamento dos desequilíbrios fiscais.

Em seu programa de governo, Lula prometeu manter o arcabouço fiscal, com medidas para controlar os gastos e enfrentar distorções no sistema de emendas parlamentares. Durante a campanha, porém, não detalhou como pretende realizar o ajuste. Ao mesmo tempo, apresentou propostas como ampliação de benefícios sociais, passe livre no transporte público aos fins de semana, acesso a canetas emagrecedoras pelo SUS, renegociação de dívidas tributárias, envio de recursos via Pix para microempreendedores individuais (MEIs) e criação de uma modalidade universitária do Pé-de-Meia, além de uma nova rodada do Desenrola.

A vitória sobre Flávio Bolsonaro (PL) também deve provocar volatilidade no mercado financeiro, segundo analistas. Parte dos investidores apostava na vitória do candidato do PL e na possibilidade de mudanças na condução da política econômica. Para Eduardo Velho, da JF Trust Gestora de Recursos, a reação negativa dependerá, entre outros fatores, das perspectivas para o ajuste fiscal e da escolha do próximo ministro da Fazenda.

Fazenda

Uma das principais incertezas do quarto mandato é quem comandará a economia. Entre os nomes cotados estão o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, que assumiu o cargo após a saída de Fernando Haddad, e o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, que tem proximidade com o PT.

Haddad, por sua vez, é apontado como possível nome para a Casa Civil. Caso seja escolhido, poderá atuar para manter Durigan na Fazenda e preservar a atual orientação econômica. A derrota de Haddad para Tarcísio de Freitas (Republicanos) na disputa pelo governo de São Paulo, ainda no primeiro turno, entretanto, enfraqueceu sua posição política.

Segundo Velho, a manutenção de Durigan ou a escolha de Moretti seria interpretada pelo mercado como continuidade da política econômica atual. Um nome novo, mais alinhado ao ajuste fiscal, poderia ser recebido positivamente pelos investidores.

Ajuste fiscal

A equipe econômica prevê resultado primário positivo equivalente a 0,5% do PIB em 2027, mas a meta é vista com ceticismo por parte do mercado financeiro. Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, Lula enfrentará dificuldades para recuperar a confiança dos investidores e negociar com um Congresso que, em sua avaliação, poderá adotar uma postura de confronto com o governo.

O programa petista não prevê privatizações como estratégia para reduzir a dívida. A proposta defende o papel do Estado no desenvolvimento econômico e cita concessões de infraestrutura que combinem investimentos públicos e privados.

Outra preocupação é o crescimento das despesas obrigatórias, que já representam cerca de 92% do Orçamento da União. Previdência, assistência social, saúde e educação concentram mais de 80% dos recursos e reduzem o espaço disponível para investimentos e custeio da máquina pública. Projeções do governo indicam que, sem medidas para conter os gastos, poderá faltar dinheiro para despesas não obrigatórias a partir de 2028.

O reajuste do salário mínimo seguirá a regra que considera a inflação e o crescimento do PIB de dois anos antes, limitado a 2,5% de ganho real anual. Lula também rejeitou mudanças nas regras de financiamento da saúde e da educação e negou alterações no Benefício de Prestação Continuada (BPC), embora essas despesas estejam entre os fatores de pressão sobre o Orçamento.

A economista Selene Peres Nunes, uma das autoras da Lei de Responsabilidade Fiscal, defende que o ajuste passe por mudanças nas despesas com Previdência, assistência, saúde e educação, além do corte de benefícios extras no funcionalismo e de uma reforma administrativa que alcance os cargos mais altos do serviço público.

As emendas parlamentares também pressionam as contas públicas. No Orçamento de 2026, o Congresso aprovou R$ 62 bilhões nessa modalidade, dos quais R$ 49,9 bilhões foram destinados pelos próprios parlamentares. A revisão desse sistema está entre os desafios para o próximo mandato.

Indústria digital e políticas sociais

Além da agenda fiscal, Lula pretende investir no desenvolvimento de uma indústria digital no País. Durante a campanha, o presidente também destacou as indústrias verde e criativa como áreas capazes de gerar empregos e ampliar a formação profissional.

Na área da educação, prometeu universalizar o Pé-de-Meia para estudantes do ensino médio e criar uma modalidade voltada aos universitários. As propostas se somam à intenção de manter, aperfeiçoar e ampliar programas de proteção social, como o Bolsa Família. (Com informações de O Estado de S.Paulo)

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