Domingo, 08 de novembro de 2026

Promotores paulistas temem esvaziamento do Ministério Público com PEC da Segurança

Promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP) elogiaram pontos da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, ao mesmo tempo que têm ressalvas quanto ao efeito prático na rotina de investigadores que combatem facções criminosas. A proposta, aprovada pelo Senado na terça-feira, endurece o combate às facções criminosas e milícias, torna mais claras as atribuições da Polícia Federal, amplia o escopo da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e cria mecanismos para aumentar o financiamento da segurança pública. Outro ponto da norma é o reforço na possibilidade de ações integradas entre as forças federais, estaduais e municipais, sob coordenação do governo federal.

O promotor Juliano Atoji, do Gaeco paulista, diz que há temor de um esvaziamento do papel dos ministérios públicos, em contraponto a um possível protagonismo de órgãos como a PF:

— Tem uma previsão na PEC sobre atuação de força-tarefa intergovernamental segundo a qual é admitida, entre as polícias, a participação do Ministério Público. Ou seja, como se os 30 anos de Gaeco fossem esquecidos. Várias operações recentes a gente coordenou a partir daqui, obviamente com participação dos órgãos parceiros.

O promotor, contudo, vê com bons olhos a consolidação de mecanismos estruturais previstos na PEC, como a vinculação de fundos de segurança pública e penitenciário, o que evita o contingenciamento de recursos para tecnologia e inteligência. Também elogia a melhoria no abastecimento dos bancos de dados nacionais pelos órgãos estaduais, que permitem a consulta rápida de antecedentes criminais de suspeitos. Isso evitaria, por exemplo, que um investigado ou réu se passasse por primário num estado enquanto responde a processos ou é foragido em outro.

Da teoria à prática

Já o promotor Danilo Pugliesi, também do Gaeco de São Paulo, destaca que a PEC tem o mérito de constitucionalizar e padronizar o ambiente de integração e o repasse de fundos federais vinculados à atuação conjunta, superando gargalos do Sistema Único de Segurança Pública (Susp).

Ele pondera, entretanto, que o sucesso das novas regras dependerá da construção de uma governança horizontal e de lideranças que consigam fazer com que as polícias estaduais, federais e os ministérios públicos de fato somem capacidades e compartilhem inteligência desde a fase de investigação, nos moldes de operações de grande porte como a Carbono Oculto:

— Se o Ministério da Segurança Pública for esse governador de fato, governador no sentido de governança, ele vai conseguir que dali saiam investigações conjuntas, que envolvem de fato compartilhamento de informação.

Para o promotor Fábio Bechara, ex-membro do Gaeco, o conceito de governança é abrangente e engloba questões políticas e executivas, que andam juntas.

— Dentro da governança sobre a política, há alguns elementos que são chave. Um deles é a liderança que, a meu ver, tem que ser do presidente da República. Esse braço é muito importante para que seja algo estável e permanente na condução do negócio. Não pode ser qualquer um (…). O engajamento da Presidência da República na condução dessa agenda é fundamental para assegurar a efetividade dessa cooperação federativa — afirmou Bechara, que descreve o segundo “braço” necessário como um executor que poderia ficar à frente do Ministério da Segurança Pública.

Disputa por protagonismo

Outro promotor que também atua no âmbito paulista, mas preferiu não se identificar, é mais cético quanto à efetividade da PEC na integração e parcerias entre diferentes órgãos. Ele cita como exemplo a Operação Carbono Oculto, que investigou a infiltração do PCC no setor de combustíveis e na Avenida Faria Lima, o centro financeiro do país. Apesar de ter ocorrido com cooperação entre MP, Receita Federal e Polícia Federal desde o início, a ação acabou com uma disputa de protagonismo por parte da PF durante a divulgação dos resultados para a imprensa.

Em entrevista, o ex-secretário nacional de Segurança Pública Mário Sarrubbo ressaltou que o crime organizado rompeu fronteiras e se internacionalizou enquanto as forças de segurança estaduais trabalhavam de forma isolada. Procurador de Justiça aposentado e ex-chefe do Ministério Público paulista, ele afirmou que a PEC institucionaliza a integração.

Uma das mudanças práticas é o fim do risco de nulidade de provas. Em investigações de polícias civis e MPs em que a Guarda Civil Metropolitana ou a PRF apoiam o cumprimento de mandados, por exemplo, defesas de criminosos costumam alegar desvio de função. Com a PEC, a integração ganha respaldo na Constituição. (Com informações do portal O Globo)

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Política

O Brasil passa a ter exame obrigatório em três etapas para o exercício da Medicina
Pode te interessar
Baixe o app da TV Pampa App Store Google Play