Terça-feira, 27 de outubro de 2026

Você ainda lembra por que se casou?

Tem casal que passa anos tentando converter o outro para a sua religião particular. Uma pessoa quer transformar a companhia em pé de valsa; a outra só quer assistir ao jogo. Uma sonha com os pés na areia e o pôr do sol. A outra já imagina o churrasco no sítio, a rede na varanda e aquele sossego que vale mais do que qualquer praia paradisíaca.

E assim começa uma das campanhas mais persistentes da vida a dois: convencer o outro de que o nosso jeito de aproveitar a vida é muito melhor.

Quem ama o verão não entende como alguém pode gostar do inverno. Quem ama o frio não compreende por que alguém deseja derreter debaixo de quarenta graus. E quem gosta de dançar ainda alimenta a esperança de que, um dia, a pessoa amada levante do sofá espontaneamente e faça um convite.

Milagres acontecem, mas talvez seja melhor não fazer deles o planejamento conjugal.

O curioso é que, muitas vezes, essas diferenças já estavam lá no início. A pessoa não gostava de dançar, preferia ficar em casa, não era fã de praia e nunca escondeu sua paixão pelo sítio. Mas o amor, acompanhado de uma boa dose de esperança, costuma cochichar no nosso ouvido: “Depois muda!”.

E lá vamos nós para o casamento levando, além das malas, um projeto secreto de reforma do cônjuge.

Não gostamos muito de admitir, mas, em alguns casos, não queremos apenas compartilhar a vida com alguém. Queremos que essa pessoa aprenda a gostar das mesmas coisas e, de preferência, descubra sozinha que o nosso jeito é o melhor.

Anos depois, a reclamação aparece: “Você nunca quer sair!”, “Você só pensa em ficar em casa!”, “A gente nunca faz o que eu gosto!”. E talvez a resposta mais desconcertante seja: mas essa pessoa já não era assim quando você se apaixonou?

É claro que as pessoas mudam. Amadurecem, descobrem novos interesses e aprendem a se relacionar melhor. O problema começa quando esperamos que o outro abandone sua essência para corresponder àquilo que idealizamos.

Uma coisa é crescer junto; outra é exigir que alguém se transforme em uma versão que nunca foi.

Gostar de coisas diferentes não significa amar menos. Um casal não precisa compartilhar todos os hobbies, frequentar os mesmos lugares ou vibrar diante das mesmas paisagens para construir uma relação feliz.

O que faz diferença é a disposição para conhecer o mundo do outro sem desprezar o próprio. Às vezes, ceder é um gesto de amor. Vamos à praia mesmo preferindo o sítio. Acompanhamos um passeio que não escolheríamos espontaneamente. Experimentamos uma dança ou aceitamos um programa diferente. Não porque fomos vencidos em uma disputa conjugal, mas porque compartilhar a alegria de quem amamos também pode ser prazeroso.

Mas atenção: ceder não significa viver contrariando a própria vontade, assim como respeitar não significa nunca negociar. Uma convivência equilibrada precisa de reciprocidade. Se sempre uma pessoa abre mão e a outra sempre decide, não temos harmonia; temos alguém ficando para trás.

O segredo não está em gostar das mesmas coisas, mas em construir uma vida em que os gostos dos dois tenham espaço. Em alguns momentos, cada um pode seguir seu programa. Em outros, podem descobrir juntos algo que nenhum dos dois imaginava apreciar.

Lembre-se de quem era aquela pessoa, do que você admirava nela e do que fez seu coração escolhê-la. Será que você está incomodado com algo que realmente mudou ou frustrado porque o outro continua sendo quem sempre foi?

Antes de tentar trocar o modelo, vale conferir se o problema não está na expectativa de que o casamento venha acompanhado de um manual para mudar o outro.

Afinal, o amor não exige que duas pessoas gostem sempre da mesma paisagem. Exige que aprendam a caminhar juntas, respeitando as diferenças e encontrando lugares onde ambas possam ser felizes.

Se, neste fim de semana, alguém quiser praia e alguém preferir o sítio, talvez a solução não seja descobrir quem venceu a discussão, mas combinar como os dois podem aproveitar a vida sem transformar cada preferência em uma batalha.

Porque casamento não é uma disputa para decidir quem tem o melhor gosto. É uma parceria entre duas pessoas que escolheram compartilhar a vida, não necessariamente a mesma playlist, a mesma estação do ano ou o mesmo destino de férias.

Por isso, diante daquela reclamação que se repete há anos, talvez valha uma pausa para uma pergunta: você ainda lembra por que se casou?

Até a próxima consulta.

* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

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