Quinta-feira, 09 de abril de 2026

A beleza ainda importa

Recentemente, o ator Timothée Chalamet viralizou ao afirmar que ninguém se importa com balé e ópera, destacando que essas formas de arte exigem esforço para permanecerem vivas. A afirmação, que pode ter custado a ele o Oscar de Melhor Ator, levanta uma questão importante: o que aconteceu com a nossa capacidade de contemplar obras executadas à perfeição, enquanto nutrimos nossos pensamentos com sentimentos maiores do que a nossa existência?

Para o filósofo Roger Scruton, a beleza não é um luxo nem uma construção puramente subjetiva. Trata-se de uma necessidade humana profunda, uma forma de revelar ordem ao mundo e de nos conectar com algo que transcende o imediato. O belo, nesse sentido, não apenas agrada, mas orienta.

Também recentemente, tive a oportunidade de vivenciar dois ambientes radicalmente distintos em Buenos Aires. No Teatro Colón, assisti ao clássico “O Lago dos Cisnes”. A sala estava lotada. Os ingressos haviam se esgotado em poucos minutos. A plateia reagia, se emocionava e acompanhava cada movimento com atenção quase reverente.

Em contraste, visitei uma exposição na embaixada brasileira. Ali, o ambiente era outro. Obras que, sob o rótulo de arte contemporânea, pareciam menos interessadas em elevar o espírito e mais inclinadas a provocar desconforto, ruptura e até certo mal-estar. Não havia público. Não havia contemplação. Havia apenas estranhamento.

A comparação entre os dois espaços é inevitável. De um lado, uma tradição artística que exige técnica, disciplina e compromisso com a forma, mas que continua a atrair e comover multidões. De outro, uma produção que parece prescindir de qualquer critério compartilhável, afastando o público, causando ojeriza e se sustentando mais por discurso do que por experiência artística.

Talvez o problema não seja que o público deixou de valorizar a beleza. Talvez o que esteja acontecendo seja o oposto: quando a arte abandona completamente a busca pelo belo, o público simplesmente deixa de reconhecê-la como algo digno de atenção.

Essa percepção não é nova. No filme “A Sociedade dos Poetas Mortos”, há uma passagem em que o professor John Keating lembra aos seus alunos: “Nós não lemos ou escrevemos poesia porque é fofo. Nós lemos e escrevemos poesia porque somos membros da raça humana, e a raça humana é repleta de paixão. E medicina, direito, negócios, engenharia, esses são objetivos nobres necessários para sustentar a vida, mas poesia, beleza, romance, amor, são esses motivos pelos quais nos mantemos vivos”.

O Teatro Colón cheio e a sala vazia na embaixada contam a mesma história. A arte que exige esforço e que provoca os sentimentos mais íntimos do ser humano continua viva, enquanto a que abdica de sentido, não.

* Nathália Ceolin Vieira, associada do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Colunistas

Menos lucro e mais concentração fundiária
Pode te interessar
Baixe o app da TV Pampa App Store Google Play