Terça-feira, 14 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 13 de abril de 2026
Era uma vez uma formiguinha muito curiosa que morava em um grande formigueiro… Não qualquer uma. Daquelas que, no meio do fluxo, parava por um instante… pensava… refletia…
Enquanto as outras carregavam folhas, abriam túneis e sustentavam aquele pequeno universo, ela escutava rumores. Histórias de um mundo lá fora. Gigantes que esmagavam sem perceber, criaturas que devoravam formigas, forças invisíveis, incompreensíveis.
E aquilo cresceu dentro dela. A curiosidade virou fascínio. O fascínio virou deslumbramento. De repente, o cotidiano pareceu pequeno demais, a rotina, limitada, a própria existência, insignificante.
Então, ela passou a olhar para fora… e deixou de olhar para dentro. Sem perceber, bagunçou o próprio universo.
Abandonou tarefas, negligenciou o essencial e colocou a própria existência em risco.
Mas a queda não começa na desordem. Começa quando ela passa a se sentir diferente. Mais desperta. Mais inteligente. Mais consciente.
E esse é um dos venenos mais antigos: a vaidade de achar que, porque enxergou algo além, se tornou maior que os outros. É nesse ponto que a curiosidade deixa de ser busca e vira soberba.
Ela passa a desprezar o simples, a disciplina, o papel das outras formigas, como se tudo fosse pequeno demais para alguém “iluminado”.
Só que há uma ironia brutal nisso: mesmo sendo mais inquieta, ela continua sendo uma simples e frágil formiga.
E, justamente por esquecer isso, se perde. Não por falta de inteligência, mas por excesso de orgulho.
E talvez seja exatamente isso que acontece com o homem. Um vídeo aqui… uma teoria ali… e pronto.
A mente se abre, mas a vida começa a se desorganizar. E pior: o sujeito passa a se sentir acima dos outros.
Mas enxergar além não é estar acima. Existe uma verdade que poucos aceitam: nós somos pequenos e frágeis. E não há problema nisso.
O problema é ignorar. Se, por exemplo, no Triângulo das Bermudas existisse algo além da nossa compreensão, a pergunta não seria “isso existe?”, mas “o que tu ganhas indo atrás?
Se está além da tua capacidade, isso não é coragem. É vaidade travestida de bravura.
É o impulso de quem busca uma experiência grandiosa, sem considerar o risco de perder tudo.
Amigos, rotina, amores, responsabilidades e identidade… tudo deixado para trás.
Talvez sem volta. Isso não é curiosidade. É exposição. É o ego dizendo: “Comigo vai ser diferente”. E é aí que muita gente se perde.
Troca a construção da própria vida pela sedução do desconhecido. Mas existe um detalhe que muda tudo: dentro de cada mundo, existem limites. E dentro deles, existe crescimento. Existe ordem. Existe progresso.
Ali, naquele espaço aparentemente pequeno, a formiga pode evoluir. Pode encontrar o seu papel… e algo raro: a própria voz.
O verdadeiro progresso não está em romper tudo por vaidade, mas em compreender as leis do teu mundo e crescer dentro delas.
O homem faz o contrário quando se perde. Busca respostas sobre o universo sem compreender a própria vida. Fala de forças invisíveis, mas não controla os próprios hábitos.
Procura sentido em tudo, menos nas próprias escolhas. E transforma a lucidez em troféu, quando deveria ser responsabilidade.
Porque sabedoria sem humildade vira delírio. E conhecimento sem direção vira dispersão.
Existe uma verdade silenciosa: dentro do teu limite existe o teu poder. Não é sobre ignorar o que está além, é sobre não abandonar o que está dentro.
Porque, no fim, não é só o desconhecido que destrói. Às vezes, o que destrói é a ilusão de grandeza diante dele.
E talvez a maior sabedoria não seja entender tudo… Mas entender até onde você pode ir… e fazer bem aquilo que está nas tuas mãos.
E quanto à formiguinha… Se um dia ela sair do formigueiro, talvez descubra um mundo maravilhoso e maior. Ou talvez não passe de alguns metros.
Talvez, no primeiro descuido… seja suficiente para apagá-la. Não por maldade. Mas porque existem forças que ela não controla.
Antes de querer consertar o mundo, conserte a própria vida. Porque, às vezes, o que nos falta é ter ciência da noss pequenez humana dentro da vastidão do universo…
Que tipo de formiguinha você é?
* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho