Quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 11 de novembro de 2023
A indústria automobilística que concentra a produção no Sudeste voltou a criticar ontem a versão final da reforma tributária, aprovada no Senado, que estende, até 2032, incentivos fiscais para fábricas instaladas no Nordeste e Centro-Oeste. Em entrevista, o presidente da Volkswagen do Brasil, Ciro Possobom, disse que a mudança ameaça os planos de investimentos da companhia no País.
O Senado aprovou o texto da reforma tributária que incluiu adendos que modificaram um artigo que originalmente previa a extensão de incentivos fiscais nas regiões Nordeste e Centro-Oeste apenas para veículos híbridos e elétricos. Novos parágrafos, acrescentados de última hora, acomodaram também veículos a combustão produzidos nessas regiões.
Algumas horas depois da entrevista do presidente da Volks, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC informou que a montadora já definiu um novo programa de investimentos e que negociou prorrogação do contrato coletivo de trabalho na fábrica de São Bernardo do Campo para viabilizar a produção de dois veículos híbridos naquela unidade a partir de 2027. Os valores do novo investimento não foram informados.
A empresa, no entanto, não confirmou os dados que foram divulgados pelo sindicato depois de submeter o acordo a uma assembleia de trabalhadores na troca de turnos em São Bernardo. Por meio de nota, a Volks informou que as negociações sindicais ainda estavam em andamento na fábrica de motores de São Carlos.
Segundo o sindicato, com o investimento, será desenvolvida uma nova plataforma de veículos que servirá para os híbridos. Além disso, segundo a entidade, serão abertas 111 vagas na engenharia para o desenvolvimento da motorização híbrida e haverá a efetivação de 150 empregados com contratos temporários. “O acordo dá longevidade para a fábrica e gera oportunidades de crescimento do setor de autopeças do ABC”, disse, Wellington Messias Damasceno, diretor do sindicato e representante dos trabalhadores na Volks.
Na entrevista concedida antes, Possobom disse apenas que a Volks “está prestes a anunciar” novos investimentos no Brasil, que incluem a produção de carros híbridos e elétricos. O ciclo atual de investimentos da montadora alemã soma R$ 7 bilhões na América do Sul, com ênfase no Brasil, e abrange o período de 2022 a 2026. Ele considerou “desleal” a forma como as alterações entraram no texto-base da reforma tributária “aos 49 do segundo tempo”.
“É claro que um novo cenário prejudica investimentos e empregos; muda totalmente”, disse Possobom. “É certo que vai vir a pergunta da Alemanha: ‘Ciro, que história é essa?’”
A medida beneficia diretamente a linha de produção que a Stellantis tem em Goiana (PE). “Não somos contra incentivos no Nordeste e estávamos de acordo em mantê-los para estimular a produção de novas tecnologias. Mas não é justo manter os benefícios para carros a combustão para uma empresa que já fez investimentos na região e formou a rede de fornecedores”, destacou.
Mais tarde, a Stellantis, que ainda não se pronunciou sobre a aprovação da reforma, também foi, indiretamente, alvo das críticas de nota divulgada pela chinesa Great Wall Motor (GWM). Para a GWM, a decisão “representa um retrocesso do ponto de vista tecnológico e ambiental, porque abrange, inclusive, veículos de passeio movidos a óleo diesel, além de uma renúncia fiscal prejudicial ao desenvolvimento do país”.
A GWM declarou, ainda, apoio ao manifesto, assinado no dia anterior por General Motors, Toyota e Volkswagen. Na segunda-feira, as três montadoras divulgaram, em jornais, uma carta pedindo a exclusão das emendas que permitem a continuidade, até 2032, dos benefícios do programa do Nordeste.
A Great Wall anunciou investimento de R$ 10 bilhões no Brasil – cerca de R$ 4 bilhões de 2022 a 2025 e R$ 6 bilhões entre 2026 e 2032. Na primeira fase, a companhia comprou a fábrica que pertencia à Mercedes-Benz em Iracemápolis, no interior de São Paulo, onde planeja produzir carros híbridos e elétricos a partir de 2024.
Benefícios no Nordeste também envolvem a BYD, que anunciou projeto de produção na Bahia. Os planos da montadora chinesa já estavam, no entanto, amparados pelo texto original, já a ideia é produzir em São Paulo apenas modelos híbridos e elétricos.
“Não somos contra incentivos no Nordeste e estávamos de acordo em mantê-los para estimular a produção de novas tecnologias”, destacou Possobom. Mas não é justo manter os benefícios para carros a combustão para uma empresa, que já fez investimentos na região e formou a rede de fornecedores”.
O executivo disse que conversou sobre o tema com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, mas não sabe qual é a opinião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na conversa com Haddad, ele explicou que os benefícios concedidos no Nordeste oferecem larga vantagem em custos, mesmo levando em conta a distância do principal centro consumidor, no Sudeste. “É muito desproporcional; incluem uma cláusula sem deixar a gente discutir”, destacou.
Não fosse o incômodo da emenda que alterou o texto relacionado aos incentivos fiscais, Possobom estaria satisfeito com a reforma, que, segundo destaca, vai ajudar a reduzir custos.