Sábado, 04 de abril de 2026

A inflação da guerra começou com os combustíveis, mas chegará aos preços de fertilizantes e, finalmente, aos dos alimentos.

Começou com os combustíveis, mas chegará aos preços de fertilizantes e, finalmente, aos dos alimentos. A incursão dos Estados Unidos no Oriente Médio acaba de completar um mês, as expectativas de que a guerra acabaria rapidamente caíram por terra e as consequências do fechamento parcial do Estreito de Ormuz já começam a afetar as projeções de inflação. Tem sido assim no mundo todo, e não seria diferente no Brasil.

O mais recente Boletim Focus mostrou que a projeção para o IPCA deste ano subiu pela terceira semana consecutiva, para 4,31%, e voltou a se aproximar do limite superior da meta de inflação. Há um mês, a expectativa do mercado financeiro era de 3,91%. Os analistas também ajustaram suas previsões para a Selic. Se há um mês esperavam que a taxa básica de juros encerrasse o ano em 12% ao ano, agora projetam que ela fique em 12,5% ao ano.

Tal como uma profecia autorrealizável, as projeções logo chegarão ao bolso do consumidor. O comportamento dos alimentos preocupa muito, pois o item é um dos que têm maior peso no cálculo da inflação. A consultoria Logos Economia, que antes da guerra estimava que o preço dos alimentos aumentaria 3% neste ano, elevou sua previsão para 4,4% assim que os conflitos tiveram início e ajustou novamente a estimativa, para 4,6%, após a divulgação da prévia da inflação oficial.

Não bastasse a guerra, o País ainda terá de lidar com os efeitos do El Niño na safra. Segundo o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, é improvável que a inflação cheia fique abaixo dos 4% neste ano, e o limite superior dependerá essencialmente da duração do conflito. Do lado positivo, o enfraquecimento do dólar tem ajudado a atenuar esses impactos no mercado doméstico, e o aperto monetário foi tão longo e intenso que ninguém enxerga a possibilidade de o Banco Central voltar a elevar os juros tão cedo.

Há muito pouco a ser feito em um choque de oferta, mas o governo não quer correr o risco de parecer inerte perante a inflação, ainda mais no momento em que pesquisas eleitorais apontam empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. No pacote de bondades, além de conter os preços do diesel, o governo quer limitar o reajuste da conta de luz, subsidiar o botijão de gás e encontrar maneiras de reduzir o endividamento das famílias.

Em comum, todas são ações paliativas, que atacam a consequência, e não a causa dos problemas. Os combustíveis acompanham a cotação do petróleo, o custo da energia aumenta em razão dos subsídios embutidos nas tarifas e os empréstimos se tornaram impagáveis porque o governo incentiva a população a se endividar para fazer a economia girar.

O Executivo gasta mais do que arrecada e dá força à inflação, enquanto o Banco Central mantém juros elevados para tentar mantê-la o mais próximo possível da meta. A guerra no Oriente Médio e o calendário eleitoral só exacerbam essa incongruência. Resta ao País torcer para que o conflito acabe de uma vez, pois o arsenal de medidas de um governo desesperado não parece ter fim.

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