Sexta-feira, 01 de julho de 2022

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A outra grande obra de Charles Darwin que poucos conhecem e não é sobre a evolução

As pessoas demonstram espanto abrindo muito os olhos e a boca e levantando as sobrancelhas? A vergonha provoca um rubor e, especialmente, a que altura do corpo se estende esse rubor? Quando um homem está indignado ou provocando, ele fica carrancudo, mantém o corpo e a cabeça erguidos, enquadra os ombros e aperta os punhos?

Essas são as três primeiras perguntas de um questionário de 17 que o naturalista e biólogo britânico Charles Darwin (1809-1882) enviou a amigos, parentes e, o mais importante, a naturalistas, missionários, comerciantes e viajantes baseados em lugares remotos.

Em 1866, Darwin havia se dedicado a uma pesquisa sobre as emoções, e durante os anos seguintes ele compilou observações sobre o tema em escala global.

O cientista estava interessado particularmente nos povos que haviam tido até então pouca comunicação com colonizadores europeus, pois seu objetivo era medir até que ponto as expressões emocionais eram culturais e convencionais ou instintivas e universais.

As respostas chegaram da Austrália, Nova Zelândia, Bornéu, Malásia, China, Calcutá (Índia), Ceilão (atual Sri Lanka), a África meridional e ocidental, América do Norte e América do Sul.

Ele, porém, também fez experimentos em casa. Durante uma série de jantares, de março a novembro de 1868, Darwin pediu a seus convidados que interpretassem as expressões de um sujeito que aparecia em 11 fotografias feitas pelo anatomista francês Guillaume-Benjamin Duchenne, para examinar o movimento dos músculos faciais.

Segundo os relatos, eles concordaram, de forma quase unânime, em suas interpretações de algumas fotografias, aquelas que descreviam medo, surpresa, alegria, tristeza e raiva.

Darwin queria determinar se havia uma série de emoções “cardeais” que eram expressadas e percebidas por todos os seres humanos da mesma maneira — e se estas eram inatas ou biológicas.

Suas pesquisas fizeram parte do livro A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, no qual descreveu sua opinião de que a expressão era uma característica que os humanos compartilhavam com os animais.

Da Terra do Fogo

O interesse de Darwin na expressão emocional já era evidente na sua famosa viagem no navio Beagle, durante a qual ficou fascinado pelos diferentes sons e gestos trocados entre povos da Terra do Fogo (extremo sul da América do Sul). Na volta, ele registrou observações em um conjunto de cadernos, depois intitulados “Metafísica sobre a Moral e Especulações sobre a Expressão”.

Em 1866, três décadas após seu regresso, ele escreveu ao oficial naval e hidrógrafo Bartolomé James Sulivan, tenente do HMS Beagle, para que pedisse ao missionário Waite Hockin Stirling que observasse “durante uns meses a expressão de semblante diante de diferentes emoções de qualquer ‘fueguino’ (habitante da Terra do Fogo), mas especialmente daqueles que não haviam tido muito contato com os europeus”.

Ele também pesquisara o assunto em seu próprio ambiente. Desde antes de ter seus filhos, que ele estudava detalhadamente, juntamente com sua mulher, registrando cada observação, ele pedia a parentes e conhecidos que lhe enviassem suas observações sobre as expressões de bebês e crianças.

E seus amados animais de estimação, cachorros e gatos, também eram objeto de sua observação, assim como os de conhecidos seus, incluindo aves em gaiolas e peixes dentro de aquários.

Os animais do zoológico de Londres também eram observados — e quando a resposta não era suficiente, Darwin buscava uma maneira de encontrá-la onde fosse necessário.

Em 1868, ele escreveu, por exemplo, ao botânico e entomologista George Henry Kendrick Thwaites, superintendente dos jardins botânicos de Peradeniya (Ceilão, hoje Sri Lanka), para pedir-lhe um favor “que parecerá um dos mais estranhos já solicitados”.

Disse Darwin em sua carta: “Sir J Emerson Tennant disse que os elefantes capturados, quando gemem e gritam, choram de modo que as lágrimas brotam de seus olhos (…) Você poderia observar isso, sem confiar na memória de ninguém?”.

O britânico também manteve correspondências com vários especialistas em diversos campos, inclusive da área médica, como o cirurgião oftalmologista William Bowman, a quem lhe pediu que observasse se “quando um bebê grita violentamente, ele cerra os músculos orbiculares para comprimir os olhos e evitar que se encham de sangue”.

Ele se comunicou, ainda, com o oftalmologista holandês Franz Donders, que realizou experimentos detalhados em seu nome para determinar quais eram as fibras nervosas específicas responsáveis pela secreção de lágrimas.

Suas perguntas desafiaram os especialistas a investigar novos fenômenos e ampliaram o conhecimento fisiológico.

Como Darwin acreditava que aqueles considerados loucos compartilhavam com as crianças a incapacidade de controlar ou ocultar emoções fortes, pediu a ajuda de James Crichton Browne, o superintendente de um asilo. Browne, que tentava fazer da instituição um centro de investigação sobre a loucura e as enfermidades do cérebro, produziu descrições detalhadas de pacientes que padeciam de transtornos emocionais como medo extremo, fúria e melancolia.

Apesar de todo esse esforço, porém, Darwin esteva a ponto de jogar a toalha antes de compartilhar com o mundo o que havia pesquisado.

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