Sexta-feira, 13 de março de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 13 de março de 2026
A Polícia Federal (PF) descobriu que o Banco Master apresentou informações falsas ao Banco Central (BC) não apenas sobre suas transações com o Banco Regional de Brasília (BRB). A instituição também é acusada de fornecer dados incorretos para manipular o cálculo do Índice de Basileia – indicador que mede a saúde financeira de um banco e sua capacidade de suportar riscos.
Segundo a PF, a fraude permitiu que o banco realizasse um volume significativo de operações sem a devida alocação de capital. O objetivo seria mascarar o descumprimento dos limites regulatórios exigidos pelo sistema financeiro. De acordo com os investigadores, sem a manipulação dos dados o índice de Basileia da instituição cairia de 11,52% para 9,12%, ficando abaixo do mínimo exigido de 10,50%.
O inquérito conduzido pela PF, no âmbito da segunda fase da Operação Compliance Zero, aponta que a crise de liquidez enfrentada pelo Banco Master foi uma consequência previsível de um modelo de gestão voltado à transferência fraudulenta de capital. A investigação já identificou caminhos utilizados para desviar recursos do banco para o patrimônio pessoal do banqueiro Daniel Vorcaro.
Além disso, há pelo menos dois inquéritos em andamento envolvendo possíveis irregularidades na relação da instituição com o BRB. Outra apuração investiga a contratação de influenciadores digitais para atacar autoridades.
A defesa de Vorcaro, que foi preso na semana passada, não se manifestou até o momento.
De acordo com a investigação, a estratégia fraudulenta envolvia a captação de recursos por meio da emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas de remuneração acima da média do mercado. Esses recursos eram posteriormente direcionados para fundos de investimento ou empresas artificialmente supervalorizadas. Após passarem por diversas camadas de transferências, os valores acabavam chegando a empresas ou fundos ligados a Vorcaro, aliados e familiares.
O exame de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) revelou, segundo a PF, um padrão considerado alarmante. Empresas cedentes de direitos creditórios com capital social muito baixo – em muitos casos inferior a R$ 100 mil – emitiam dívidas que somavam centenas de milhões de reais, adquiridas integralmente por fundos ligados ao Banco Master.
Entre os casos investigados está o lançamento de um fundo que registrou prejuízo de 99% e praticamente “virou pó”, após o desvio dos recursos captados. Em outra situação, a ausência de documentação sobre movimentações financeiras impediu a realização de uma auditoria independente.
Um dos episódios envolve o MN I Fundo de Investimento em Direitos Creditórios. Segundo a Polícia Federal, as empresas responsáveis pela cessão dos créditos ao fundo tinham capital social inferior a R$ 100 mil e possuíam vínculos societários com uma empresa da família de Vorcaro. Os investigadores destacaram ainda que o relatório de auditores independentes apontou que R$ 275 milhões – o equivalente a 63,72% do patrimônio do fundo – não possuíam documentação capaz de comprovar os repasses.
“A abstenção de opinião emitida pelo auditor independente sobre as demonstrações contábeis do fundo revela que não foi possível obter evidências suficientes e apropriadas para sustentar qualquer conclusão acerca da fidedignidade das informações apresentadas”, apontou a PF.
Outro caso considerado ainda mais grave envolve o FIDC Alvarinho. Conforme a investigação, o principal cotista do fundo era o próprio Banco Master, enquanto os créditos adquiridos foram cedidos por uma empresa pertencente ao sobrinho de um dos sócios da instituição.
Para os investigadores, a operação pode indicar uma estrutura criada para transferir recursos do banco, por meio de fundos de investimento, aos próprios dirigentes da instituição – o que configura indícios relevantes de gestão fraudulenta.
Em agosto de 2025, o fundo informou em fato relevante que seu patrimônio havia sofrido uma perda de 99,45%, consumindo praticamente todos os recursos aplicados.
Na prática, segundo a Polícia Federal, a empresa cedente – ligada ao grupo do banco – recebeu recursos pela cessão de créditos possivelmente sem capacidade de recuperação. Já o fundo, que era abastecido com recursos captados no mercado por meio da emissão de CDBs, acabou sendo totalmente consumido, transformando-se no que o mercado financeiro chama de um fundo que “virou pó”. (Com informações de O Estado de S. Paulo)