Segunda-feira, 18 de maio de 2026

A proximidade com Daniel Vorcaro deu aos adversários argumentos para utilizar na tentativa de “desconstruir” a imagem de Flávio

A proximidade com Daniel Vorcaro, assim como o filme sobre a trajetória de Bolsonaro, deu aos adversários argumentos para utilizar na tentativa de “desconstruir” a imagem de Flávio. E meio ao escândalo, surgiu a acusação de que parte dos recursos pagos pelo banqueiro não seriam destinados ao filme. Eles ajudariam a bancar o irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde 2024. O caso está sob investigação da Polícia Federal.

A família Bolsonaro, claro, nega a acusação — mas, a essa altura, qualquer palavra que Flávio ou seus irmãos disserem a respeito do episódio será utilizada contra eles. O que interessa aos adversários não são os fatos, mas as versões. O importante, para eles, é explorar ao máximo a possibilidade de usar escândalos como esse para manter Flávio na defensiva e impedir que ele volte a cortejar o eleitor com a desenvoltura que vinha demonstrando antes do escândalo estourar.

O senador, por sua vez, não parece disposto a recuar de sua pretensão presidencial. A pergunta é: será que a candidatura que até o início da semana passada parecia ter uma avenida aberta pela frente recuperará o fôlego? Esse é o ponto que interessa.

O que mais chamou a atenção no calor do escândalo nem foi a tentativa dos políticos de esquerda de tirar proveito da situação. O que se destacou, isso sim, foi a pressa com que políticos de direita que também pleiteiam a presidência se lançaram sobre o butim — tentando conquistar para si os votos que Flávio perderia com o episódio.

O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, que até outro dia cobria Flávio de elogios, foi o que mais elevou o tom. “Ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável”, disse em vídeo divulgado pela internet. O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, tomou outro caminho. “O pré-candidato Flávio Bolsonaro precisa, sim, se explicar diante de todas as gravações que foram publicadas”, afirmou Caiado antes de lembrar que, em 40 anos de vida pública, nunca foi alvo de acusações de corrupção. Foi como se dissesse: se ele é corrupto, eu não sou!

MACALLAN 21 ANOS — A questão é muito mais complexa do que parece e os efeitos desse escândalo ultrapassam, e muito, a figura de Flávio. Se o critério de aferição das reputações dos candidatos à Presidência da República nas eleições deste ano se basear em ligações com o Master ou com a família Vorcaro, poucos permanecerão na disputa. As teias de influência do banqueiro chegam aos três poderes da República e alcançam políticos de todas as inclinações ideológicas.

A começar pelos dignitários do PT da Bahia, muita gente no campo da esquerda tem explicações a dar sobre as ligações com o ex-dono do Master. Os petistas baianos, até onde se sabe, foram os primeiros a mergulhar no esquema de tráfico de influência, em que o banqueiro oferecia mimos caríssimos em troca de acesso privilegiado ao poder. Logo, a prática se alastrou alcançou algumas das mais altas autoridades da República.

O certo é que o banqueiro não media esforços para agradar as autoridades que, se cumprissem suas funções ao pé da letra, poderiam criar obstáculos para que ele seguisse aumentando o patrimônio com base em operações financeiras fajutas. As festanças que ele oferecia em sua propriedade em Trancoso, no Sul da Bahia, eram rumorosas. Os eventos que ele patrocinava em Nova York ou em Londres, com direito a regabofes à base de uísque Macallan 21 anos, atraiam autoridades graúdas e o mantinha em contato direto com o poder — com destaque para figuras próximas ao atual governo.

Os cargos e as posições políticas das autoridades envolvidas com o Master antes que seu nome passasse a figurar na lista, ao invés de servir de álibi, tornam a situação de Flávio ainda mais delicada. Mais do que os danos que o escândalo já provocou e ainda pode provocar à sua reputação, a presença do senador na lista de Vorcaro arranca das mãos da direita uma das bandeiras mais vistosas que ela tinha para mostrar ao eleitor. Até a semana passada, Flávio tinha autoridade para apontar o dedo para os adversários e acusá-los de cometer as mais tenebrosas transações da República. Depois que os áudios vieram a público, os adversários é que estão chamando Flávio de corrupto.

O melhor que Flávio poderia ter feito teria sido não se envolver com o banqueiro. Já que se envolveu, não precisava ter mandado uma mensagem de viva voz e, em alto e bom som, cobrar a ajuda prometida para financiar o filme sobre seu pai. Mas, já que, mais uma vez, fez o que não deveria ter feito, tudo o que resta a ele é procurar sair dessa encrenca o mais depressa e ao menor custo possível. Diante das cobranças inevitáveis e das explicações que será obrigado a dar daqui por diante, o senador acertou em não fugir do assunto. Isso é tudo o que resta a ele — além, é claro, de esperar por pesquisas confiáveis, que meçam o impacto dessas denúncias sobre o ânimo do eleitor.

MODELO DE VIRTUDE — Flávio sempre poderá dizer — e vem fazendo isso desde que o escândalo explodiu — que as gravações divulgadas são anteriores ao lançamento de sua pré-candidatura. Isso é a mais absoluta verdade. A mensagem divulgada é do dia 16 de novembro do ano passado. Vorcaro não o atendeu, nem poderia. No dia seguinte, 17 de novembro, o banqueiro estava ocupado demais, em reuniões com diretores do Banco Central, na tentativa derradeira de salvar seu banco da liquidação extrajudicial. Horas depois, foi preso no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, no momento em que tentava embarcar para Dubai em um dos jatos de sua frota — no que foi visto como uma tentativa de se mandar do país e deixar para trás a confusão que causou.

O senador só viria a se apresentar como candidato, ungido pelo pai, no dia 5 de dezembro de 2025 — ou seja, 18 dias depois da gravação. Poderia, ao anunciar a decisão, ter se tomado a iniciativa de revelar, antes que alguém perguntasse, as ligações perigosas que mantinha com Vorcaro. Preferiu, no entanto, agir como se não tivesse feito o que fez. O que resta, agora, é saber se o senador terá tempo e argumentos para limpar a própria ficha e reduzir os danos do escândalo em sua imagem.

Seja como for, a lama espalhada pelo Master respingou por toda parte, mas a sujeira, neste momento, parece concentrada exclusivamente na imagem de Flávio. Depois das críticas de Zema a Flávio, por exemplo, alguém lembrou que o pai de Daniel, Henrique Vorcaro (que, por sinal, foi preso pela Polícia Federal na quinta-feira passada) havia doado R$ 1 milhão ao Partido Novo — ao qual o ex-governador é filiado.

Ora, se o dinheiro da família Vorcaro é bom para o Novo (que sempre se apresentou como um modelo de virtude no meio da podridão política brasileira) por que seria tão ruim para o filme sobre Bolsonaro? O senador, por sinal, deixou clara sua insatisfação com Zema ao dizer que merecia, pelo menos “o benefício da dúvida”.

O fato, porém, é que Zema agiu como é comum em duelos dessa natureza: atirou primeiro e perguntou depois. Não foi o único dos que andaram se beneficiando do dinheiro de Vorcaro a voltar as baterias contra Flávio. O próprio senador lembrou, em entrevista à GloboNews, que o Master foi um patrocinador generoso do programa do apresentador Luciano Huck na TV Globo.

A emissora, como se sabe, é crítica a tudo que se refira a Bolsonaro, qualquer Bolsonaro. Na entrevista, Flávio mencionou que o Master havia aportado R$ 160 milhões na TV Globo — embora ninguém tenha tornado público o valor do patrocínio. Como se vê, o senador não foi o único a pôr as mãos em dinheiro de Vorcaro. Mas, pelo que se viu até agora, corre o risco de pagar o preço mais caro pelas ligações com o banqueiro.

Nuno Vasconcellos/ O Dia

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