Segunda-feira, 09 de março de 2026

A queda de 1,1 milhão de matrículas, registradas no Censo Escolar, expõe fragilidade do ensino médio no Brasil

O Brasil registrou uma queda expressiva no número de matrículas da educação básica. O Censo Escolar 2025, divulgado pelo Ministério da Educação na última semana de fevereiro, mostrou que o total de estudantes caiu de 47,1 milhões em 2024 para 46 milhões em 2025 – uma retração de cerca de 1,1 milhão de matrículas em apenas um ano, atingindo o menor patamar da década. Nada bom. Por outro lado, constatou-se que o número de alunos em tempo integral na rede pública cresceu 11% entre 2024 e 2025 e 19% em relação a 2020. Nada mau.

O avanço do tempo integral merece aplauso. Já a queda nas matrículas pode ser vista tanto com lentes generosas quanto com preocupação. O ministro da Educação, Camilo Santana, preferiu restringir a análise ao campo dos otimistas. Disse ele: “O número de matrículas na educação básica reduziu, perdemos 1 milhão de matrículas apenas no último ano. Mas isso não é um problema, é na verdade um bom sinal de que nosso sistema educacional está mais eficiente”. A escolha empobrece um debate que deveria ser franco. O Censo Escolar é instrumento essencial para qualquer projeto sério de melhoria da educação básica e não pode servir a leituras seletivas.

Há, de fato, argumentos que relativizam o problema. Especialistas apontam uma tendência natural de diminuição das matrículas, sobretudo por fatores demográficos, como a queda no número de nascimentos, e pedagógicos, como a redução da repetência e da distorção idade-série, que “desincha” o sistema. O Brasil atravessa transição demográfica acelerada, com menos crianças ingressando na escola, e avanços no fluxo escolar reduzem matrículas infladas por reprovações sucessivas.

Ocorre que essa explicação não esgota a questão. O caso do ensino médio é distinto – e mais preocupante. Essa etapa foi a principal responsável pelo encolhimento das matrículas, com cerca de 425 mil alunos a menos na rede pública em um único ano. O ensino médio atingiu o menor número de estudantes da década. Não se pode atribuir recuo dessa magnitude apenas à redução de nascimentos ocorridos há 15 ou 16 anos, nem supor que a melhora do fluxo explique tamanha perda.

O ensino médio é historicamente o elo mais frágil da educação brasileira. É nessa fase que a evasão se concentra e que as pressões econômicas sobre os jovens se intensificam. Hoje, aproximadamente 17% dos brasileiros de 15 a 17 anos estão fora da escola ou acumulam atraso relevante no percurso escolar. Trata-se de proporção elevada demais para um país que pretende crescer e reduzir desigualdades.

Registre-se o fato de São Paulo ter respondido por cerca de 60% da redução das matrículas no ensino médio público. Como maior rede estadual do País, seu peso é naturalmente grande. Ainda assim, a concentração da queda nessa magnitude é atípica e exige explicações claras também por parte do governo estadual.

Mas o quadro se torna mais contraditório quando se considera que o governo federal projetou para 2025 algo em torno de R$ 12 bilhões no programa Pé-de-Meia – com menções públicas a cifras que ultrapassam R$ 16 bilhões. Criado para estimular a permanência de estudantes de baixa renda no ensino médio, o programa se tornou uma das principais vitrines do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e uma das maiores peças de propaganda para superar a sensação de malaise que marca seu mandato. Se, apesar de um investimento dessa magnitude, o número de matriculados caiu de forma tão acentuada, é legítimo questionar sua efetividade. Ou, no mínimo, que os números divulgados sirvam de esteio para um debate sério, e não para floreios autoelogiosos.

Não se trata de negar a transição demográfica nem de desconsiderar avanços no fluxo escolar. O problema está em tratar fenômeno complexo como sinal inequívoco de eficiência. Menos jovens na escola significa menor qualificação da força de trabalho, menos mobilidade social e maior risco de perpetuação da desigualdade. O ensino médio é porta de entrada para o ensino superior e para melhores oportunidades no mercado de trabalho. Quando ele encolhe, o País encolhe junto.

O Censo deveria ter sido ocasião para debate franco sobre os desafios reais dessa etapa. E reconhecer que, na educação, números não são abstrações, mas trajetórias interrompidas e futuros comprometidos. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Brasil

Janela partidária preocupa partidos políticos menores e acende alerta no União Brasil
Pode te interessar
Baixe o app da TV Pampa App Store Google Play