Domingo, 12 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 11 de abril de 2026
Conhecido do público brasileiro por títulos como “A culpa é das estrelas” e “Cidades de papel”, com 5 milhões de títulos vendidos e adaptações para o cinema, o autor norte-americano John Green diz ter agora encontrado “o trabalho de sua vida”. Seu plano é usar seu espaço e prestígio para falar sobre a tuberculose, doença que mata 1,2 milhão de pessoas no mundo ao ano, mesmo com testagem e tratamentos conhecidos. John explorou o tema no livro “Tudo é tuberculose: a história e a reincidência de nossa infecção mais mortal”. recém-lançado pela Editora Intrínseca. Nele, Green explica como essa infecção moldou a cultura, a moda e as artes, mas também de que maneira tornou-se uma doença de populações vulneráveis, sem acesso às drogas que salvariam suas vidas em poucos meses. Em entrevista ao portal O Globo o escritor falou sobre o cenário geral da doença e por que acredita que o cenário global de infecções deve piorar. “A tuberculose não acabou, é um problema global, e isso inclui os EUA e o Brasil”.
Confira alguns trechos:
O que precisa ocorrer para a tuberculose ser controlada?
Poderíamos acabar com a crise da tuberculose se quiséssemos, tudo o que é preciso são recursos. Temos a tecnologia para isso. O que não temos são sistemas de distribuição, mas sabemos o que precisa ser feito. Precisamos buscar os casos, oferecer tratamento a todos que estão doentes e garantir cuidado preventivo para seus contatos próximos. E, se fizermos isso, acabaríamos com a crise da tuberculose em poucos anos. O desafio é que, na verdade, não temos um problema tecnológico, temos um problema de empatia, de justiça. E são esses os problemas que mais me interessam. Não sou um especialista técnico em tuberculose, mas não é preciso ser para entender isso.
O livro foi concluído em 2024. A realidade hoje, com guerras e pouco financiamento, está ainda pior do que aquela?
Sim, acho que a tuberculose vai piorar nos próximos anos. Ainda não começamos a ver isso nos dados, mas veremos. Está piorando porque a guerra piora tudo. Está piorando porque os Estados Unidos e outros países ricos não estão investindo tanto em saúde de forma geral e, em particular, na resposta à tuberculose. E isso é devastador porque, quando o governo Trump assumiu o poder nos Estados Unidos, em janeiro de 2025, cortou imediatamente o acesso ao tratamento de centenas de milhares de pessoas. Depois, grande parte desse financiamento acabou sendo restabelecida e essas pessoas voltaram ao tratamento. Mas, nesse intervalo, muitas desenvolveram resistência aos medicamentos, o que torna a doença mais difícil e mais cara de curar. Muitas morreram. E isso, para mim, é absolutamente inaceitável.
E o que é possível fazer?
Acho que há coisas que podemos fazer tanto dentro quanto fora das urnas. Uma dessas coisas, e que tem sido bastante eficaz, é pressionar o governo a financiar a saúde global. Muitos dos cortes foram revertidos. Então, na prática, estamos vendo um financiamento de saúde relativamente estável. Mas há coisas como os protestos, que eu acho super importantes. E também, ainda faltam três anos para podermos votar para presidente, nesse intervalo podemos fazer muita coisa.
O seu livro fala muito de preconceito. Como é o estigma da tuberculose hoje?
Há muito estigma em torno da tuberculose no mundo todo. Quando as pessoas adoecem com tuberculose, muitas vezes são abandonadas por suas famílias. Um sobrevivente me disse que lidar com o estigma é mais difícil do que lidar com a doença. E eu acredito. E já ouvi de profissionais de saúde que, em alguns casos, quando um paciente morre, são eles que precisam enterrá-lo, porque a família tem medo demais de ir buscar o corpo. Essas histórias partem meu coração. Um dos aspectos do estigma é que tendemos a estigmatizar doenças que são difíceis de tratar, curar e que nos assustam. São doenças infecciosas que nos causam medo. E a tuberculose não precisa ser difícil de curar. Ela não precisa ser uma doença tão estigmatizada. Estamos escolhendo caminho porque não estamos fazendo um trabalho bom o suficiente para levar o cuidado da tuberculose às pessoas mais vulneráveis.
O que é um caminho possível para reduzir o estigma de uma doença? Você conta que viveu isso com seu diagnóstico de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
O TOC era uma condição muito mais estigmatizada nos Estados Unidos quando eu era criança do que é hoje. E muita coisa foi feita para combater esse estigma. Mas parte disso veio de pessoas conhecidas passarem a dizer: “Eu tenho TOC e tenho uma vida ótima, as duas coisas não são incompatíveis.” E acho que é parecido com a tuberculose. A questão é se realmente os ouvimos (os ativistas), se os mecanismos dos nossos sistemas de informação estão, de fato, fazendo um bom trabalho ao dar voz a essas pessoas. Com informações do portal O Globo.