Domingo, 13 de julho de 2025

Agarrado ao poder: Netanyahu prolongou a guerra em Gaza para se manter no cargo

Seis meses após o início da guerra na Faixa de Gaza, em outubro de 2023, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, preparava-se para encerrá-la, mas decidiu mudar o curso de suas decisões após realizar cálculos políticos que visavam manter sua relevância no governo do país. É o que concluiu uma investigação conduzida pela New York Times Magazine, que conversou com mais de 110 autoridades em Israel, nos Estados Unidos e no mundo árabe e analisou dezenas de documentos, incluindo registros de reuniões do governo, negociações, planos de guerra, relatórios de Inteligência e até protocolos secretos do grupo terrorista Hamas.

Em abril de 2024, segundo a revista, Netanyahu planejava apresentar uma proposta que suspenderia a guerra em Gaza por pelo menos seis meses, abrindo uma janela para negociações com o Hamas por um cessar-fogo permanente. Mais de 30 reféns capturados no início da guerra seriam libertados em poucas semanas, e outros seriam soltos se a trégua fosse estendida. A destruição do enclave palestino, onde cerca de 2,3 milhões de pessoas lutavam para sobreviver sob bombardeios diários, seria interrompida.

Encerrar a guerra aumentaria as chances de um acordo histórico de paz com a Arábia Saudita, o país mais poderoso do mundo árabe — feito que nenhum líder israelense havia conquistado desde a fundação do Estado, em 1948. No entanto, também havia riscos para Netanyahu, líder de uma coalizão frágil e fortemente dependente de ministros de extrema direita que queriam ocupar Gaza. Se o cessar-fogo ocorresse cedo demais, eles poderiam romper com o governo, provocando eleições antecipadas que pesquisas da época indicavam que Netanyahu perderia.

Fora do cargo, ele estaria vulnerável: desde 2020, respondia a um processo por corrupção — acusações que ele nega, relacionadas a supostos favores a empresários em troca de presentes e cobertura favorável da imprensa. Sem o poder do cargo, perderia a capacidade de demitir a procuradora-geral que conduzia sua acusação.

Agora, quase dois anos após o início da guerra, muitos israelenses acreditam que o conflito ainda não terminou por culpa principalmente do Hamas, que se recusa a se render, mesmo diante de perdas humanas incalculáveis no enclave, que já chegam a 57 mil, segundo cálculos das autoridades de Saúde locais. A maioria também vê a expansão da guerra para o Líbano e o Irã como um ato necessário de autodefesa contra aliados do grupo palestino que também querem destruir Israel. Ao mesmo tempo, porém, cresce o número de pessoas que acreditam que Israel poderia ter fechado um acordo antes — e acusam Netanyahu, que tem autoridade final sobre a estratégia militar do país, de impedir que isso ocorresse.

Todas as pessoas ouvidas pela NYT Magazine — apoiadores e opositores à guerra — concordaram com um ponto: o de que a extensão e a expansão da guerra foram politicamente benéficas para Netanyahu. A apuração da revista chegou a três conclusões inevitáveis:

1) a estratégia de Netanyahu em relação ao Hamas nos anos anteriores à guerra fortaleceu o grupo;
2) seu esforço para enfraquecer o Judiciário israelense meses antes do ataque fez Israel parecer vulnerável e encorajou o Hamas a preparar a ofensiva;
3) uma vez iniciada a guerra, muitas das decisões do premier foram moldadas principalmente por necessidades políticas e pessoais.

No entanto, à medida que o conflito deixou de ser uma batalha existencial e se transformou em uma guerra de desgaste — com outros líderes israelenses questionando a lógica por trás de sua continuidade —, foi Netanyahu quem a prolongou, publicou a NYT Magazine:

“Foi Netanyahu quem se recusou a planejar uma transição de poder no pós-guerra, e foi Netanyahu quem repetidamente adiou um cessar-fogo. Temendo por sua própria sobrevivência política, Netanyahu vinculou seu destino aos sonhos dos extremistas israelenses e prolongou a guerra para manter o apoio deles”, acrescentou a revista americana.

Mais de 20 meses depois do início da guerra, Israel está, sob algumas interpretações, mais seguro com o resultado. A derrota do Hezbollah, o enfraquecimento do Irã e o colapso do governo sírio talvez não tivessem ocorrido se a guerra tivesse terminado no início de 2024.

Ao mesmo tempo, a reputação internacional do Estado judeu atinge o ponto mais baixo de sua História, e a Corte Internacional de Justiça avalia se o país, fundado após um genocídio, é culpado de cometer outro. O Tribunal Penal Internacional já emitiu um mandado de prisão contra Netanyahu, que terá como legado uma das maiores catástrofes do século, capaz de manchar a imagem de Israel por anos. Ainda assim, para o premier, conclui a revista, houve um ganho notório: ele sobreviveu.

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