Sexta-feira, 26 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 25 de junho de 2026
Aviso: esta reportagem contém relatos de violência que podem ser perturbadores para alguns leitores
Rebecca, criadora de conteúdo na plataforma OnlyFans, afirma que entrou para uma agência depois que lhe prometeram ajudar a aumentar seus ganhos na rede social voltada para conteúdo adulto.
Em vez disso, segundo ela, foi vítima de abusos, recebeu ameaças contra a filha e teve homens mascarados enviados à sua casa para agredi-la.
“Eles eram adoráveis no começo.”
A mulher de 29 anos, do sul do País de Gales, diz que seus novos empresários afirmavam que ela era bonita e que “nunca tinham visto uma garota” como ela.
Mas, em poucas semanas, eles se tornaram “bastante controladores”, passando a insultar sua aparência e a proibi-la de sair com amigos, conta ela no documentário OnlyFans: Inside the Machine (OnlyFans: Por dentro da Máquina, em tradução livre), da BBC Three (em inglês).
Segundo Rebecca, o comportamento abusivo se intensificou depois que ela alterou os dados de acesso à conta, preocupada com a possibilidade de a agência, que tinha acesso ao perfil, bloqueá-la.
“Vou acabar com você e com sua filha”, dizia uma das mensagens enviadas para ela e vistas pela BBC.
Um tijolo foi arremessado contra a janela de sua casa e, algumas semanas depois, dois homens mascarados apareceram no local.
Um deles entrou na residência e, segundo Rebecca, a estrangulou e a jogou “escada acima e abaixo”. Ela mostrou à reportagem da BBC fotografias de hematomas nas pernas e no pescoço.
Seu relato faz parte de um padrão de acusações contra agentes que se apresentam nas redes sociais como gestores de contas de OnlyFans, conhecidos pela sigla OFM (OnlyFans Managers).
Eles prometem ajudar os criadores de conteúdo a expandir seus negócios na plataforma, mas informações obtidas pela BBC mostram que, em alguns casos, atuam de forma exploratória e fazem ameaças.
Ouvimos 60 criadores de conteúdo do OnlyFans no Reino Unido e nos infiltramos em um dos maiores grupos privados de agentes no Telegram, chamado OFM Empire, que reúne 24 mil membros.
Ali, encontramos orientações sobre como recrutar criadores, assumir o controle de suas contas e lucrar com isso, muitas vezes recorrendo à ameaça de violência. Um dos usuários chamou essa estratégia de “método cafetão”.
A plataforma OnlyFans tem conhecimento de preocupações relacionadas a gestores de contas excessivamente exploradores há pelo menos quatro anos, quando denúncias envolvendo agências começaram a aparecer na imprensa internacional.
Mas, pela primeira vez, nossa investigação se concentra no Reino Unido, onde a plataforma OnlyFans está sediada.
Segundo especialistas em direitos humanos e advogados que tiveram acesso às conclusões da BBC, a plataforma não está fazendo o suficiente para proteger os criadores de conteúdo contra exploração.
“O que a Rebecca viveu reúne sinais amplamente reconhecidos de exploração: controle, coerção, pressão financeira e impossibilidade de sair livremente”, afirma à BBC Eleanor Lyons, comissária independente contra a escravidão moderna do Reino Unido.
“É algo que o governo precisa examinar com mais atenção. Podemos estar diante de uma plataforma que facilita a exploração e os abusos.”
Um porta-voz do OnlyFans afirmou que “a acusação de que a empresa ‘fecha os olhos’ [para esses problemas] é infundada”.
Segundo esse porta-voz, a companhia leva a segurança dos usuários “extremamente a sério” e investe “pesadamente” em medidas para proteger a sua comunidade. Ele acrescentou ainda que a plataforma cumpre todas as obrigações previstas na Lei de Segurança Online do Reino Unido.
“A relação do OnlyFans é com seus criadores de conteúdo e fãs. Não temos vínculo nem endossamos terceiros, incluindo agências de gestão.”
“Infelizmente, não podemos revisar nem influenciar relações contratuais que os criadores escolham estabelecer fora da plataforma, porque não fazemos parte desses acordos.”
as mulheres na plataforma podem estar vulneráveis à exploração
Mais de 4,6 milhões de criadores de conteúdo em todo o mundo publicam vídeos e fotos para assinantes pagantes no OnlyFans. A plataforma fica com 20% da receita.
Um dos casos de maior sucesso das redes sociais no Reino Unido, a empresa que opera o OnlyFans, a Fenix International, registrou lucro antes de impostos de US$ 684 milhões (cerca de R$ 3,8 bilhões) em seu balanço mais recente.
Ao mesmo tempo, cresceu em torno da plataforma um ecossistema global de gestores de contas conhecidos como OFMs. Eles prometem atrair mais assinantes e aumentar os ganhos dos criadores. Em troca, ficam com uma parte da receita, geralmente 50%. Com informações do portal BBC News.