Sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Algumas pessoas são naturalmente ruins em matemática? Entenda

Um fazendeiro tem três tipos de animais em sua fazenda. Seus animais são todos ovelhas, exceto três. Todos cabras, exceto quatro. E todos cavalos, exceto cinco. Quantos animais de cada tipo o fazendeiro tem? Se esse enigma te deixou confuso, você não está sozinho. A resposta é um cavalo, duas cabras e três ovelhas.

Mas por que a matemática parece vir com tanta facilidade para algumas pessoas, enquanto outras parecem ter dificuldade? Embora a genética possa desempenhar um papel, ela é apenas uma peça de um quebra-cabeça muito maior, que envolve uma combinação complexa de biologia, psicologia e ambiente.

Estudos com irmãos gêmeos

A professora Yulia Kovas, do Goldsmiths, uma Universidade de Londres, no Reino Unido, é geneticista e psicóloga e estuda por que as pessoas têm diferentes habilidades matemáticas.

Ela trabalhou em um estudo de grande escala com gêmeos, acompanhando cerca de 10 mil pares de gêmeos idênticos e não idênticos desde o nascimento, para investigar como fatores genéticos e ambientais moldam as capacidades de aprendizagem.

“Gêmeos idênticos são mais semelhantes do que gêmeos não idênticos em todas as características psicológicas que estudamos. Portanto, eles são mais parecidos em habilidade matemática, e isso sugere que os ambientes domésticos não explicam toda a variabilidade. Parece que os genes, sim, contribuem”, explica.

Segundo a professora Kovas, no Ensino Médio e na vida adulta, o componente genético da aprendizagem e da habilidade matemática parece ficar em torno de 50% a 60%. “Isso reforça a ideia de que genes e ambientes são ambos importantes”, afirma.

Ambiente

O ambiente a que somos expostos também é um fator importante a ser considerado. E isso não se limita apenas à qualidade da escola ou à quantidade de ajuda que recebemos com a lição de casa. Pode ser algo “aleatório”, como algo ouvido no rádio que mudou o rumo dos nossos interesses, sugere a professora Kovas.

Mas ela observa que predisposições genéticas podem levar uma pessoa a se expor mais a determinados estímulos. Embora nem todos se tornem matemáticos especialistas, a boa notícia é que todos podem melhorar sua capacidade, segundo a doutora Iro Xenidou-Dervou, que pesquisa cognição matemática na Universidade de Loughborough, no Reino Unido.

Há evidências de que, para desenvolver nossa numeracia e nossas habilidades matemáticas, nossos pensamentos, crenças, atitudes e emoções desempenham um papel importante, explica ela.

A doutora Xenidou-Dervou afirma que a “ansiedade em relação à matemática” pode influenciar o desempenho, e que é importante que as pessoas que querem melhorar acreditem que são capazes.

“Ansiedade matemática”

Experiências negativas, como ouvir que você é ruim em matemática ou tirar uma nota mais baixa em uma prova em comparação com os colegas, podem levar a um “ciclo vicioso” de pensamentos ansiosos, afirma ela.

“A ansiedade em relação à matemática leva à evitação da matemática, o que por sua vez leva a um desempenho ruim, o que então aumenta ainda mais a ansiedade matemática.”

E isso sobrecarrega a nossa memória de trabalho, onde o pensamento acontece.

“O que ocorre com a ansiedade é que esses pensamentos negativos e ansiosos ocupam muito desse espaço precioso na nossa memória de trabalho, e sobra muito pouco para que você realmente use para resolver o problema em questão”, explica Xenidou-Dervou.

Ela cita um estudo da Universidade de Loughborough com crianças de nove e dez anos que investigou a relação entre memória de trabalho e ansiedade em matemática.

As crianças receberam uma tarefa de cálculo mental com números de dois dígitos, mas também passaram por uma condição em que ouviam palavras antes da tarefa, que precisavam reter e depois recordar verbalmente. O desempenho das crianças que apresentavam “alta ansiedade em matemática” foi particularmente afetado, observa ela.

Senso inato para números

O professor Brian Butterworth, da University College London, atua na área da neuropsicologia cognitiva. Suas pesquisas mostram que os seres humanos têm um senso inato de números, inclusive crianças que nunca foram ensinadas a contar.

Mas, para algumas pessoas, segundo ele, esse “mecanismo inato não funciona muito bem”.

A discalculia é uma dificuldade de aprendizagem específica relacionada à compreensão e ao uso de números e quantidades. Acredita-se que ela seja tão prevalente quanto a dislexia, afetando cerca de 5% da população, de acordo com o professor Butterworth.

Pessoas com discalculia costumam ter dificuldade com tarefas aritméticas, como cinco vezes oito ou seis mais dezesseis.

O professor Butterworth e sua equipe desenvolveram um jogo que, segundo ele, ajuda crianças com aritmética básica, especialmente aquelas com discalculia.

Mas, afirma ele, ainda não está claro quais efeitos intervenções desse tipo podem ter no longo prazo.

“O que seria necessário é intervir cedo e depois acompanhar o desenvolvimento dessas crianças ao longo dos próximos anos”, diz.

Então, o que torna a matemática diferente de outras disciplinas?

A doutora Xenidou-Dervou compara o aprendizado da matemática à “construção de um muro mental de tijolos”, em que é preciso ter uma base sólida para avançar para um nível mais alto.

“Você realmente não pode pular etapas no domínio da matemática. Por exemplo, em história, talvez você não conheça muito bem um período específico e tudo bem. Mas, em matemática, isso simplesmente não é possível”, afirma.

Lições internacionais

A professora Kovas aponta para uma pesquisa do Programme for International Student Assessment (PISA), do início dos anos 2000, criada para avaliar os sistemas educacionais em todo o mundo com estudantes de 15 anos de diferentes países, medindo suas habilidades em matemática, leitura e ciências.

“Ao topo dos rankings internacionais estavam estudantes chineses, além de alguns outros países — países do Leste Asiático — e a Finlândia. E, por isso, a Finlândia passou a ser vista como uma espécie de paradoxo europeu, por estar ali junto desses países do Leste Asiático”, afirma ela.

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