Domingo, 15 de março de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 15 de março de 2026
Os resultados das últimas pesquisas eleitorais acirraram os questionamentos entre aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e integrantes do governo sobre a estratégia de comunicação do Palácio do Planalto. Diante das projeções que apontam um empate técnico na disputa com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a ideia de priorizar a divulgação de entregas do terceiro mandato é compreendida por ministros mais à esquerda e petistas como insuficiente.
Para o grupo de insatisfeitos, a tática de evitar, por ora, ataques mais enfáticos a Flávio passou a ser considerada um erro. Um diagnóstico, porém, é comum entre aliados. Ministros do Centrão, aliados de partidos da base e integrantes da cúpula do PT ouvidos pelo GLOBO admitem que a aposta do ministro Sidônio Palmeira, da Comunicação Social, de focar apenas na divulgação de pautas positivas ainda não decolou.
Uma delas, a ampliação da isenção do Imposto de Renda (IR), não se traduziu em números positivos na popularidade de Lula, fato que preocupa para a corrida eleitoral. Sidônio, ao lado do publicitário Raul Rabelo, irá pilotar o marketing da campanha. No momento, ele adota uma abordagem cautelosa, evitando apelar à desconstrução de Flávio.
Parte dos governistas acha que é necessário partir para o ataque agora. Essa ala vê a estratégia de comunicação como defensiva e sustenta a necessidade de maior engajamento da militância contra o bolsonarismo.
As pesquisas que mostraram empate entre Lula e Flávio chacoalharam a cúpula do PT. Uma delas foi o levantamento da Genial/Quaest, divulgado na quarta-feira, que mostrou ambos com 41% das intenções de voto nas simulações de segundo turno. Em dezembro, o petista tinha dez pontos percentuais de vantagem.
Integrantes da executiva fazem uma mea culpa e consideram que o governo e o PT ficaram tempo demais na dúvida se o candidato era o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ou Flávio — segurando embate direto. Agora seria, portanto, necessário ajustar a rota.
Da parte do PT, a reação estará na rua nos próximos dias, com material nas redes sociais contra Flávio e forte mobilização das bancadas e dos movimentos sociais. Petistas afirmam que a ideia é “mobilizar a tropa para um estado permanente de campanha”.
Rachadinha e mansão
Na visão desses aliados de Lula, o senador tem uma série de vulnerabilidades que podem e devem ser exploradas. Entre elas, estão a suspeita de seu envolvimento com rachadinha, a investigação sobre sua sociedade em uma loja de chocolates e a compra de uma mansão de R$ 5,9 milhões em Brasília.
“Não creio ser conveniente fazer os ataques como eles fazem, mas como elemento de defesa talvez seja necessário fazer um contraponto. Flávio tem a questão da mansão, dos imóveis comprados com dinheiro vivo, da rachadinha. O que não falta ali é telhado de vidro”, afirma o líder da maioria, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP).
Reservadamente, um ministro se diz preocupado com o fato de Flávio tentar se vender como candidato moderado sem que o PT faça um contraponto direto.
Integrantes desse grupo elogiam, por exemplo, a recente manifestação do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, ao comparar as reações de Lula e Bolsonaro diante de investigações sobre seus filhos.
“Quando o filho do Lula foi citado em uma investigação, o presidente (Lula) chegou e disse: ‘investiga’. Quando o filho do Bolsonaro, que agora é candidato a presidente, estava sendo investigado por associação com a milícia e rachadinha, (Jair) disse que ia trocar o diretor da PF”, disse Boulos.
Momento certo
Do outro lado, defensores da estratégia de Sidônio dizem que, quando a campanha de fato começar, com inserções de TV e rádio divulgando medidas como o IR, Lula tende a crescer.
Um ministro filiado a partido de centro argumenta, sob reserva, que o filho de Bolsonaro tem “telhado de vidro baixo” e será um candidato menos difícil de enfrentar do que Tarcísio.
Nessa leitura, abrir fogo contra Flávio agora, antes do período de desincompatibilização, em abril, daria brecha para a substituição, o que não seria conveniente para Lula e tornaria a disputa ainda mais acirrada.
“Não tem o que fazer agora, porque Lula tem um limite (de crescimento) e o PT nunca ganhou em primeiro turno. É preciso descobrir o que seria algo que colaria no Flávio. O governo tem que se preocupar com a estabilidade do país e Lula nem pensar em entrar nessa briga”, afirma o líder do PSB na Câmara, Jonas Donizette (SP).
No Congresso, esse é o pensamento de parlamentares de centro-esquerda.
“Não adianta bater no Flávio, porque vai agradar só sua bolha e não os indecisos. A disputa não será por conteúdo, e Lula sabe muito bem disso, mas qual deles trabalha melhor a empatia com o eleitor”, avalia o líder do PDT, Mário Heringer (MG). (As informações são do jornal O Globo)