Quinta-feira, 09 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 8 de abril de 2026

O salão da Fecomércio-RS estava cheio. Cerca de 200 empresários, autoridades e lideranças se reuniram para ouvir dois especialistas que sabem traduzir o emaranhado da geopolítica em linguagem direta: Ricardo Geromel e Fernando Ulrich. O tema não poderia ser mais atual — como o duelo entre Estados Unidos e China redefine o comércio mundial.
Geromel trouxe números que impressionam: a China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil e de outros 120 países. Só em soja, 71% das importações chinesas vêm daqui. Mas o alerta foi claro: o Brasil continua dependente de quatro commodities, enquanto a China exporta tecnologia, veículos híbridos e baterias. É o contraste entre quem vende matéria-prima e quem dita o futuro da inovação.
Ulrich, com a serenidade de quem observa ciclos econômicos, lembrou que o mundo vive um desequilíbrio raro. O consumo americano financia o superávit chinês. “A própria China já percebeu que consome pouco e precisa corrigir isso”, disse. O risco é que o prolongamento desse embate traga choques energéticos e crises globais.
O presidente do Conselho do Prêmio Exportação RS, Rafael Biedermann Mariante, resumiu bem: “Este é um momento essencial de reflexão sobre o papel do Brasil no mercado global.”
O impacto para o Rio Grande do Sul é direto. O agronegócio gaúcho depende da demanda chinesa, mas a concentração em commodities deixa o Estado vulnerável. Empresários falam em diversificação, em agregar valor, em buscar mercados alternativos. Mas sem infraestrutura moderna — portos, rodovias, ferrovias — a competitividade fica comprometida.
O Almoço da Exportação mostrou que não se trata apenas de vender mais. Trata-se de entender que o tabuleiro global mudou. O Brasil, e o Rio Grande do Sul em particular, precisam decidir se continuarão como fornecedores de grãos e carne ou se ousarão dar o salto para produtos de maior valor agregado.
No fim, o evento foi mais que um almoço: foi um espelho. Nele se refletiram as tensões do século XXI e os dilemas de um Estado que precisa escolher entre ser coadjuvante ou protagonista no comércio internacional. (por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)