Domingo, 29 de março de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 28 de março de 2026
Um corredor estreito, com função prática, conectava os dois teatros da cidade de Pompeia, conhecida por ter sido soterrada pela erupção do Monte Vesúvio em 79 d.C. Com cerca de 27 metros de comprimento e três metros de largura, a estrutura teria sido construída entre 80 e 70 a.C., segundo estimativas arqueológicas.
Mais do que uma simples passagem entre os espaços de espetáculo, o chamado “corredor do teatro” também funcionava como área de convivência. De acordo com pesquisadores, o local era utilizado para circular, conversar e passar o tempo, possivelmente protegido por uma cobertura que ajudava a amenizar o calor e a chuva.
Como em muitos espaços urbanos de circulação, as paredes do corredor preservam uma grande quantidade de inscrições deixadas por frequentadores. Cerca de 200 grafites já haviam sido identificados, e um novo estudo acrescentou outras 79 manifestações — sendo 32 textos e 47 desenhos. Os registros incluem temas variados, como amor, sexo, caricaturas e representações de animais.
Para documentar as inscrições, os pesquisadores utilizaram a técnica conhecida como Reflectance Transformation Imaging (RTI), que combina imagens captadas sob diferentes condições de iluminação, permitindo visualizar detalhes pouco perceptíveis a olho nu e gerar representações interativas das superfícies.
A maioria das inscrições está em latim ou grego. No entanto, os arqueólogos identificaram também registros em safaítico, uma língua semítica originária do nordeste da região afro-asiática, raramente encontrada no contexto do Ocidente antigo. A presença desse idioma sugere a circulação de indivíduos de diferentes origens na cidade.
Segundo o estudo, os autores das inscrições podem ter sido legionários ou auxiliares da Terceira Legião Gaulesa, unidade do exército romano associada a Júlio César.
Entre os registros destacados está um grafite de aproximadamente 25 centímetros de comprimento por 3,5 centímetros de altura com a inscrição “Erato amat” (“Erato ama”, em tradução livre). O nome era comum entre mulheres escravizadas ou libertas, mas não é possível identificar o destinatário da mensagem, já que parte do texto se perdeu ao longo do tempo.
Outro destaque é o desenho de dois gladiadores em combate, com cerca de 10 centímetros. Os arqueólogos apontam a expressividade da cena, marcada por linhas flexíveis e pela tentativa de representar movimento, com os combatentes posicionados frente a frente e os escudos em choque.
Para os pesquisadores, essas manifestações — produzidas por pessoas comuns, e não por artistas profissionais — oferecem uma perspectiva relevante sobre o cotidiano e o imaginário dos habitantes de Pompeia, revelando aspectos da vida social que vão além dos grandes monumentos preservados pela arqueologia.