Sábado, 17 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 17 de janeiro de 2026
A Emenda 103/2019 tem tantas regras e exceções que, às vezes, é tão difícil entender quanto explicar. Então, em vez de tentar abraçar tudo, vou fazer um roteiro simples, focado na aposentadoria por idade no INSS. A pergunta que organiza tudo é uma só: você já contribuía antes de novembro de 2019?
Se a resposta for sim, guarde isso porque muda o caminho. Aqui vai o essencial: idade mínima sozinha não dá aposentadoria. Além da idade, você precisa cumprir tempo mínimo de contribuição (carteira assinada ou, na linguagem de quem já está aposentado, “pagar o talão”).
Para quem já contribuía antes de novembro de 2019, funciona assim: mulher precisa ter 62 anos e, no mínimo, 15 anos de contribuição. Homem precisa ter 65 anos e, no mínimo, 15 anos de contribuição. E é aqui que muita gente se frustra: já tem a idade, mas não tem o tempo.
Pensa no seu Zé que trabalha na padaria: ele já tem 65 anos e está na padaria da esquina desde a época em que o Inter ganhou o pentacampeonato gaúcho. Só que esse foi o primeiro trabalho dele. Então, mesmo com a idade, ele ainda precisa trabalhar mais 4 anos para completar os 15 anos de contribuição e, aí sim, ter direito à aposentadoria por idade.
Agora, se você não tinha contribuição antes de novembro de 2019 (ou seja, começou depois), também tem regra específica — e é aqui que muita gente se confunde porque acha que “é tudo igual”. A lógica continua a mesma: idade mínima + tempo mínimo de contribuição. Só que, para homens, o tempo mínimo muda. Para quem começou depois, fica assim: mulher precisa de 62 anos e 15 anos de contribuição; homem precisa de 65 anos e 20 anos de contribuição.
“Tá, e a data certinha de quando eu me aposento?” Isso você consulta no portal do Gov ou no Meu INSS. Mas, sinceramente, tem uma pergunta mais importante do que “quando eu me aposento?”: vai dar para viver com o valor?
Mesmo que você cumpra as regras, será que o INSS vai sustentar a vida que você tem hoje? E se entrarem custos que quase ninguém planeja direito: remédios, cuidados, exames, adaptações, algum suporte extra? A velhice tem um custo real, e quem não pensa nisso cedo costuma ser surpreendido lá na frente.
Por isso, eu prefiro falar em planejamento para a aposentadoria (sim, sem a palavra “financeiro”). Porque aposentadoria não é só dinheiro. É também o que você constrói agora e vai “usar” depois: hábitos de saúde, rotina, autonomia, rede de apoio. Caminhar, dormir melhor, comer melhor, prevenir, manter o corpo em movimento. Essa “boa saúde” também se acumula e, mais tarde, também se desacumula. A aposentadoria é, no sentido mais literal, você colhendo o que plantou: pode ser reserva financeira, pode ser saúde, pode ser autonomia.
O planejamento para a aposentadoria tem sido instrumento de estudo dos pesquisadores há mais de cinco décadas e, até o momento, ninguém conseguiu apontar uma resposta simples para o que faz uma pessoa ir no café superfaturado do Moinhos (para se mimar) e outra guardar esse mesmo valor para gastar daqui a 20 anos.
Planejar a aposentadoria é lidar com recursos para fins concorrentes. Na prática, é escolher. O dinheiro do café superfaturado no Moinhos de Ventos ou guardar para usar daqui 20 anos? Ficar parado o dia todo vendo séries ou sair para uma caminhada na Orla do Guaíba? Hoje você tem alternativas. Mas, dependendo do que você escolhe por anos seguidos, amanhã talvez não tenha. E esse é o ponto que deveria entrar no seu calendário junto com qualquer “data de aposentadoria”.
* Tamara Rosenblum, pesquisadora na área de finanças e aposentadoria