Domingo, 19 de abril de 2026

Após farpas com Trump, papa Leão XIV diz na África que “tiranos devastam o mundo”

Em visita à República dos Camarões, o papa Leão XIV criticou em discurso “líderes que gastam bilhões em guerras” e disse que o mundo estava “sendo devastado por alguns tiranos”, em comentários excepcionalmente vigorosos. “Bem-aventurados sejam os pacificadores”, disse o pontífice em outro trecho do discurso.

Leão XIV não fez referências pessoais em suas críticas — lançadas em um país no qual grupos separatistas empreendem uma guerra civil de décadas contra um governo autoritário cujo líder, Paul Biya, está no poder há 40 anos. Mas elas se aplicam a muitos casos no atual cenário global, principalmente quando se leva em conta o contexto recente.

“Não tenho medo do governo [de Donald] Trump”, disse o líder da Igreja, tornando-se um ponto de convergência global para os críticos do presidente dos EUA.

Nos últimos dias, Leão XIV, um cardeal de perfil discreto há apenas um ano, trocou farpas com Trump, o homem mais poderoso do mundo. A disputa lembra mais a rivalidade entre papas e imperadores medievais do que a cooperação entre o Vaticano e a Casa Branca que ajudou a vencer a Guerra Fria.

“Não somos políticos — não lidamos com política externa com a mesma perspectiva que ele pode ter”, disse o religioso de 70 anos, natural de Chicago, sobre o presidente de 79 anos, do Queens, horas depois de Trump pedir que ele “pare de agradar à esquerda radical e se concentre em ser um grande papa, e não um político”.

Mas, ao tentar mobilizar seus compatriotas para interromper o que chama de “guerra injusta” contra o Irã, o papa Leão XIV mergulhou profundamente na política de seu país de origem. Em um momento em que não há uma única voz de oposição a Trump, dentro ou fora dos EUA, o ataque do primeiro papa nascido no país às políticas do governo poderá ter consequências eleitorais em sua terra natal, ao mesmo tempo que cria riscos políticos para o presidente.

“Ai dos que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para seu próprio ganho militar, econômico e político, arrastando o que é sagrado para as trevas e a imundície”, prosseguiu o papa, ontem, em Camarões.

“Trump realmente não entende que encontrou uma tradição teológica de mais de 1.500 anos — um conjunto de ensinamentos morais sobre guerra e violência”, diz Robert Jones, fundador do Public Religion Research Institute, um centro de estudos independente. “Talvez não seja a atitude mais inteligente comprar uma briga com o papa.”

O pontífice, nascido Robert Prevost, levou o debate diretamente a Trump de uma forma que seu antecessor, o papa Francisco, que falava pouco inglês, nunca conseguiu.

O papa também difere de outros líderes que poderiam temer mais o poder econômico e militar dos EUA, usado para ameaçar aliados da Otan em relação à Groenlândia há apenas alguns meses.

“Trump está acostumado à bajulação de líderes mundiais que no geral estão assustados demais com suas retaliações para se opor a ele”, diz Thomas Wright, pesquisador da Brookings Institution. “Ele não pode usar suas ferramentas normais de intimidação, como tarifas e abandono de compromissos de segurança, contra o Vaticano.”

As críticas do presidente ao papa atingiram um ponto sensível até mesmo entre alguns aliados de Trump. Giorgia Meloni, a primeira-ministra da Itália, classificou seu ataque a Leão XIV como “inaceitável”.

Dentro dos EUA, a popularidade do papa parece ser muito superior à de Trump. Uma pesquisa da NBC News no mês passado atribui e a ele uma diferença entre avaliações positivas e negativas de 34 pontos, comparado a uma avaliação negativa de 12 pontos para o presidente na mesma sondagem.

Em essência, dizem autoridades do Vaticano, a preocupação de Leão XIV com Trump reflete uma divisão ideológica crescente entre os EUA e a Igreja sobre o futuro da ordem mundial e a legitimidade da violência como meio de resolver disputas.

“Leão XIV não está atacando um presidente”, diz o padre Antonio Spadaro, sub-secretário do Departamento de Cultura e Educação do Vaticano. “O conflito é o sintoma visível de uma colisão mais profunda entre dois sistemas operacionais mundiais incompatíveis.” Com informações do portal Valor Econômico.

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