Quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 14 de janeiro de 2026
As investigações da Polícia Federal sobre o Banco Master e a sua liquidação pelo Banco Central brasileiro colocaram em evidência um personagem do mundo do setor financeiro brasileiro com grandes ligações na política brasileira e também no mundo jurídico: Daniel Vorcaro, fundador e CEO da instituição.
Em 2025, o Master figurava apenas como 22º na lista de maiores bancos brasileiros, segundo um ranking do jornal Valor Econômico.
Com R$ 63 bilhões em ativos financeiros, o Master — que já não existe mais como banco desde que foi liquidado pelo Banco Central em novembro — representava 2% do tamanho do Itaú Unibanco, o maior banco do país, segundo o mesmo ranking.
A liquidação do Master ocorreu após suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito do banco para o Banco de Brasília (BRB) no valor de R$ 12,2 bilhões — em revelações feitas pela Polícia Federal na primeira fase da Operação Compliance Zero, realizada no ano passado.
Mesmo sendo um banco pequeno, o Master representa um risco ao sistema financeiro brasileiro na avaliação de especialistas. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse esta semana que esta pode ser a “maior fraude bancária” do país.
Um dos focos de preocupação nesse sentido seria o impacto da crise no Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — instituição privada, sem fins lucrativos, que atua como uma espécie de seguradora para quem tinha dinheiro a receber do banco.
A quebra do Master é a maior da história do país em termos de impacto para o FGC. Os 1,6 milhão de investidores do banco, que detém R$ 41 bilhões em depósitos bancários (CDBs), ainda esperam para ser ressarcidos e o montante representa um terço do caixa do fundo.
Outra medida da importância do banco, que surpreendeu muitos analistas, são as diversas conexões que existem entre Daniel Vorcaro e figuras da política e do judiciário do Brasil.
“O que me chama atenção nesse caso é a capacidade de um sujeito que tem um banco pequeno de botar braço para tudo quanto é lado num ambiente político e institucional e contaminar isso. É isso que me assusta”, disse Cleveland Prates Teixeira, economista e professor de regulação da Fipe-USP e da FGV-Law, em recente entrevista à BBC News Brasil.
Desde novembro, quando o escândalo estourou e Vorcaro foi preso, surgiram notícias das diversas conexões que ele possui com políticos tanto de direita como esquerda, e também no universo jurídico, como o Supremo Tribunal Federal.
Até o momento, não foi apontada nenhuma ilegalidade nessas conexões de Vorcaro com políticos e juristas. O caso ainda está em fase de investigação, que acontece sob sigilo no STF.
Conexões políticas
Presidente nacional do PP e ex-ministro da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro, Ciro Nogueira e o presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda, são tidos como uma ponte entre Vorcaro e o mundo político, segundo apuração da imprensa no caso.
Nogueira e Rueda teriam ajudado a negociar a venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), que acabou sendo vetada pelo Banco Central em setembro do ano passado. Meses antes, o acordo havia sido aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Nogueira e Rueda teriam acesso ao governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). Seu governo manifestou interesse em comprar o Banco Master para ampliar a presença do BRB no mercado e fortalecer sua atuação no setor financeiro.
Rocha sancionou uma lei da Câmara Legislativa para autorizar o BRB a adquirir 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do capital social do Banco Master. Mas o negócio não andou devido ao veto do Banco Central.
Consultoria
Ricardo Lewandowski, que é ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Lula, já teve o Banco Master entre seus clientes no intervalo entre deixar o STF e entrar para o governo, segundo o jornal Folha de S. Paulo.
Já Guido Mantega, que é ex-ministro da Fazenda de Lula no seu segundo mandato, também teria sido contratado como consultor e levado Vorcaro a conhecer pessoalmente o presidente, segundo o jornal Estado de S. Paulo.
O ex-presidente do Banco Central durante o primeiro governo Lula e ex-ministro da Fazenda de Temer, Henrique Meirelles, integrou um comitê consultivo do Banco Master, ao lado de nomes como Gustavo Loyola, que também comandou a autoridade monetária.
Meirelles teria assumido a posição de conselheiro substituindo Lewandowski, quando o ex-ministro do STF foi para a pasta da Justiça, segundo o noticiário econômico da época.
O ex-presidente da República Michel Temer (MDB), que é advogado de formação, também esteve na folha de pagamentos do Banco Master.
Em setembro de 2025, Temer foi contratado como mediador para tentar destravar a negociação de venda do banco para o BRB, após o BC barrar o acordo original.