Domingo, 11 de janeiro de 2026

As meninas do Irã

Cadê as feministas de plantão para lutar pelas mulheres iranianas?

Cadê as vozes indignadas para cobrar a libertação de María Oropeza?

Cadê a turma dos direitos humanos para denunciar os abusos cometidos contra o povo do Irã?

Cadê os protestos contra a imposição do hijab, contra a prisão, a tortura e a morte de mulheres por mostrarem o cabelo?

Cadê aqueles que dizem defender minorias, quando a minoria é silenciada por um regime teocrático?

Mais uma vez, ele aparece — o silêncio retumbante de quem seleciona seus “oprimidos preferidos”.

No Irã, mulheres vivem sob severas restrições civis impostas por um regime teocrático: o uso do hijab é obrigatório por lei, e o descumprimento pode levar à prisão, a agressões ou até à morte; protestar, opinar ou publicar conteúdos críticos ao regime é crime; o testemunho feminino vale menos que o masculino; direitos de herança são reduzidos; casamento, divórcio, guarda dos filhos e até o direito de viajar podem depender da autorização de um homem. O Estado controla o corpo, a voz e a vida privada das mulheres, tornando atos simples — como mostrar o cabelo ou se manifestar publicamente — verdadeiros gestos de resistência.

Você concorda com essa loucura?

“Ah, mas é cultural! Isso decorre da religião.”

Olha, pode até ser. Mas seguir diretrizes religiosas deve ser um direito, jamais uma imposição. Não se trata da religião — trata-se do Estado que obriga. Simples assim. E, infelizmente, isso se repete em vários países, especialmente no Oriente Médio. E não, isso não é aceitável. Sabe por quê? Porque não existe liberdade de escolha.

Liberdade é o bem mais valioso que um ser humano pode ter. Não por acaso, a pena mais temida é a sua privação. Tirar a liberdade é tirar dignidade, identidade e autonomia.

O Irã vive há 47 anos sob uma ditadura teocrática, instaurada após a Revolução Islâmica de 1979. Um país que caminhava para a modernização foi capturado por líderes religiosos que passaram a governar pela repressão, pelo controle dos costumes e pelo silenciamento das consciências.

E é preciso lembrar: nem sempre foi assim.

Antes da revolução, mulheres iranianas estudavam, trabalhavam, ocupavam cargos públicos e escolhiam como se vestir. O véu existia como opção pessoal, não como imposição estatal. Com a revolução, direitos foram revogados. O que era escolha virou obrigação. O que era direito virou crime. O corpo feminino passou a ser território do regime.

Hoje, mulheres são legalmente obrigadas a usar o hijab. Discordar do governo é crime. Questionar é “inimizade contra Deus”. A informação é censurada, a vida privada vigiada, o medo institucionalizado.

Qual é o problema — além do óbvio?

Isso não é apenas indignação moral. É uma questão de respeito à vida. Ao indivíduo.

Relatórios como o World Happiness Report e estudos da Freedom House mostram que países com baixos níveis de liberdade civil apresentam piores índices de bem-estar, saúde mental e felicidade. Onde não há liberdade, há medo. E o medo adoece sociedades inteiras. A consequência? Caos.

Mas o caos também tem uma vantagem: ele joga as peças para o alto e permite que caiam de outra forma sobre o tabuleiro. Abre possibilidades. Reajusta rotas. Eu sempre digo: abrace o seu caos, porque ele é o contexto perfeito para — adivinha? — a mudança.

É nesse cenário que surgem imagens que comovem o mundo: meninas e jovens retirando o véu e mostrando os cabelos diante de uma câmera.

Não é um vídeo banal.

É um ato de rebeldia imenso.

É coragem em estado puro.

É revolucionário.

Admiro profundamente essas mulheres — muitas ainda meninas. Porque, naquele gesto simples, elas enfrentam um regime inteiro. Elas dizem, sem palavras: meu corpo não pertence ao Estado. A história mostra que grandes mudanças quase sempre começam assim: pela coragem das mulheres. Quando uma mulher perde o medo, o sistema treme.

E é preciso estar atento. O tolhimento da liberdade começa aos poucos. Inicia pela censura de costumes, pelo menosprezo de valores, mas, sobretudo, pela remoção dos direitos individuais — o que inclui, inevitavelmente, a liberdade de expressão.

A questão é tão séria que até o Papa — o Papa! — fez um alerta. Leão XIV, eleito em 2025, advertiu recentemente que a liberdade de expressão está em risco no Ocidente, com opiniões sendo silenciadas, rotuladas ou punidas por não se alinharem ao pensamento dominante. Quando até o que pode ser dito passa a ser regulado, algo essencial da democracia já foi perdido.

E confesso: ao ver tudo isso, eu penso em nós. Penso no quanto, muitas vezes, já tenho medo de falar. Medo de discordar. Medo de ser perseguida pelo que penso. E só o fato de pensarmos nisso já revela algo grave. (Juro de dedinho: cada opinião que dou me rende um fio de cabelo branco — ainda bem que existe tintura.)

Mesmo assim, eu grito.

Mesmo assim, eu insisto.

Porque não podemos nos deixar calar.

Não devemos temer a soberania do Estado.

Nosso temor deve ser a perda da soberania da integridade de cada indivíduo.

Liberdade não é fazer tudo o que se quer.

Liberdade é poder pensar, falar e discordar sem medo.

Que não nos falte coragem para defendê-la.

Nem hoje.

Nem nunca.

E que saibamos agradecer às moças do Irã — essas corajosas defensoras daquilo que há de mais valioso para qualquer ser humano: a liberdade.

Instagram: @ali.klemt

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