Sexta-feira, 19 de julho de 2024

As pontes do diálogo

Pesquisas recentes informam que o Brasil está experimentando o mais agudo período de polarização política de sua história. Famílias foram divididas, antigas amizades desfeitas e existe uma espécie de mal-estar instalado no País. Há, apontam os estudos, a calcificação da discórdia entre os contrários políticos, fenômeno que tem raízes na forma e no modo como as pessoas avaliam o que é certo ou errado, numa ampla agenda de valores em conflito. A moralidade, nesse sentido, passou a ditar as regras e esse fato confere ao atual fenômeno uma duração que pode avançar décadas, já que, como sabemos, é bastante vasto e movediço o terreno do escrutínio moral entre nós.

Esse quadro, obviamente, é muito ruim para um país que precisa construir alguns consensos urgentes em prol de avanços na agenda política e econômica. Parece evidente que um quadro conflagrado como o atual conspira contra a necessária unidade nacional para o enfrentamento do futuro, particularmente numa realidade como a nossa, na qual a engenharia das vontades deveria capturar corações e mentes quase que em uníssono em prol de mudanças transformadoras. Sem uma visão unificadora e minimamente dialógica, nosso encontro com o amanhã continuará a ser postergado, o que é trágico para uma sociedade que vem adiando, quase que indefinidamente, a conquista de maior desenvolvimento e justiça social.

Entretanto, embora a arquitetura tradicional pareça vergar ao peso do sectarismo, com a política tradicional capitulando ao sabor do presente dissenso, talvez esteja no varejo da política a sua própria redenção. As sementes da reconciliação nacional podem germinar nos pequenos grupos, nas conversas de bar, num jantar em família ou num encontro de amigos qualquer.

Nessa perspectiva, vale resgatar a noção de associação civil, conforme preconizava Michael Oakeshott, em sua obra “On Human Conduct” de 1975. Diferente de uma estrutura tradicional, cujo empreendimento está preso a um propósito abrangente, as mudanças granulares advindas da associação civil emergem imprevisivelmente da troca amigável entre os participantes, livres das amarras que condicionam as concessões políticas feitas pela estrutura oficial, cujo olho em interesses imediatos cristaliza posições na moldura calcificada da atual polarização.

Alternativas ao atual modelo de construção de maior interação devem ser tentadas. Nesse contexto, a amizade quem sabe seja o antídoto para os atuais infortúnios que silenciaram o diálogo, que pontificaram um nós contra eles destrutivo, crescentemente segregado e passional. Em favor de maior entendimento, como afirmava Aristóteles, a amizade poderia emergir como um antídoto ao sectarismo político, já que é um bem indisputável e que não exige nenhum propósito adicional para justificá-la. Na mais elevada amizade, dizia o Estagirita, a virtude é a qualificação e o resultado, sendo mimetizada pela sociedade de cidadãos que buscam, através da emulação e do exemplo, honrar uns aos outros como amigos que gozam dos benefícios da amizade, precisamente porque não a buscam de forma obrigatória.

Assim, mais do que defender ideologias, que em larga medida servem para justificar o controle político e criar, no nível intelectual, um sentido de emergência manipulador, podemos e devemos estimular, conforme sugeria Oakeshott, uma política de sugestões. Esses entendimentos intuitivos de como as coisas são e como poderiam mudar, surgem do envolvimento ativo na ordem política e da abertura à conversação, daí a importância da amizade como sendo esse fio condutor propício ao tratamento do dissenso.

Esse propósito de construção de maior distensão política e reaproximação das pessoas, após um período de graves tensões, não é um mero desejo. A cristalização da polarização foi edificada com método, muitos deles amparados em mentiras, mitomanias e afastamento da realidade. As amizades e as pontes do diálogo oferecem um bom começo para uma reconstrução inadiável do entendimento nacional, tanto urgente, quanto necessário.

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