Sábado, 29 de novembro de 2025

As redes sociais e as sereias digitais

Terminei de reler, dias atrás, o episódio de Ulisses e o canto das sereias na Odisseia. A cena é conhecida, mas talvez nunca tenha feito tanto sentido quanto agora. Ulisses sabia que aquele canto prometia revelações profundas, um tipo de verdade irresistível que nenhum mortal ousava enfrentar.

Sabia também que, ao se aproximar, perderia completamente o juízo. Então, tomou uma decisão estranhamente humilde: ordenou aos marinheiros que tapassem os ouvidos com cera e pediu para ser amarrado ao mastro do navio. Não confiou na própria força, nem na própria lucidez. Confiou no limite que ele mesmo havia imposto.

Essa imagem, um homem inteligente, experiente, estrategista, pedindo para ser amarrado, diz muito sobre nós. Porque, ao contrário de Ulisses, navegamos todos os dias por mares movediços sem qualquer tipo de cera ou corda. O canto sedutor continua existindo. Só mudou de forma. Agora vem em vídeos de 30 segundos, manchetes inflamadas, perfis que se dizem “desvendadores da verdade”, memes que parecem inofensivos, mas condensam visões de mundo inteiras. O canto é sempre agradável; o naufrágio, quase sempre silencioso.

As redes sociais profissionalizaram o encanto. Não são sereias improvisadas: são sereias digitais, afinadas por algoritmos que conhecem nossos desejos melhor do que nós mesmos. Cada deslizar de dedo ajusta um tom da melodia. Cada curtida é um passo a mais em direção ao rochedo. E o mais curioso é que, diferente de Ulisses, nós queremos ouvir.

Queremos sentir que temos razão, que nossa visão é a mais lúcida, que “o outro lado” está sempre enganado ou mal-intencionado. A sensação de certeza virou recompensa imediata, e é aí que mora o perigo.

As bolhas ideológicas são o equivalente moderno daqueles rochedos onde tantos barcos naufragavam. Nelas, ninguém precisa enfrentar o desconforto da dúvida. Tudo o que chega confirma o que já pensamos, e essa confirmação constante produz um efeito narcótico. Quando menos percebemos, estamos repetindo frases prontas, reproduzindo indignações terceirizadas e compartilhando conteúdos que jamais passaríamos por um crivo mais simples de verificação. O canto parece verdade, mas apenas parece.

O mais inquietante é que as redes nos fazem acreditar que somos Ulisses, astutos, imunes, inabaláveis quando, na verdade, estamos muito mais próximos de marinheiros distraídos que acham que podem confiar no próprio ouvido. Ulisses sobreviveu porque desconfiou de si mesmo.

Nós, não raro, afundamos porque acreditamos demais na nossa própria capacidade de interpretar o mundo, como se o simples fato de estarmos convictos fosse garantia de verdade.

Talvez a lição mais urgente do mito não seja sobre monstros, mas sobre limites. Ulisses não se considerou superior ao risco. Ele se protegeu antes de ouvir o canto. Nós também precisamos criar nossas próprias amarras: checar fontes, duvidar de certezas imediatas, ler além do que o algoritmo nos entrega, aceitar que mesmo as notícias que nos agradam podem estar distorcidas. A dúvida, hoje, é a nossa cera. A prudência, o nosso mastro.

Porque, no fim das contas, navegar pelas redes não exige apenas habilidade técnica; exige humildade intelectual. Exige reconhecer que o canto continua tão sedutor quanto sempre foi. E que, se não nos amarrarmos a algum tipo de critério mínimo, podemos facilmente confundir sedução com verdade e acabar contribuindo para naufrágios coletivos.

Ulisses sobreviveu. Nós ainda estamos decidindo se queremos ser navegantes atentos ou apenas mais um barco encantado pela melodia perfeita, seguindo em direção ao rochedo sem perceber.

* Amílcar Fagundes Freitas Macedo é magistrado

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