Terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Assédio não é entretenimento. É violência.

O Brasil foi chocado, mais uma vez, por uma cena de assédio escancarada em rede nacional durante o Big Brother Brasil 2026. Como jornalista, vereadora e apresentadora de TV, acompanho diariamente o que acontece na mídia e na sociedade. Ainda que muitos insistam em tratar o programa como algo menor, irrelevante ou mera perda de tempo, a realidade é simples: milhões de brasileiros assistem. O que acontece ali importa. E muito.

Há quem diga que o reality show funciona como um laboratório social. Concordo. A casa mais vigiada do país expõe comportamentos, crenças e valores que estão presentes fora dela. O episódio de assédio exibido chocou mulheres de todas as idades porque não foi um caso isolado ou um “excesso de jogo”. Foi a reprodução nua e crua de uma cultura que insiste em tratar o corpo feminino como objeto disponível.

Enquanto isso, fora da televisão, os números gritam. Em 2026, já começamos o ano contabilizando três feminicídios. No Rio Grande do Sul, houve aumento de 10% nesses crimes, passando de 73 mortes de mulheres por razão de gênero em 2024 para 80 em 2025. Nos últimos 14 anos, foram 1.283 mulheres assassinadas no Estado. Isso significa uma mulher morta a cada quatro dias.

E não para por aí. A média é de cinco estupros por dia no Rio Grande do Sul, sem contar os casos que nunca chegam à polícia. Esses números não são estatísticas frias. São vidas interrompidas, famílias destruídas, histórias que acabam de forma violenta e cruel.

Nem mesmo uma casa cercada por câmeras, com vigilância permanente, foi capaz de conter os impulsos de um assediador. O participante do Paraná, que esteve na Casa de Vidro em um Shopping de Porto Alegre e escolhido pelo público para representar a região Sul, após o ataque, fugiu do programa, repetindo o comportamento clássico de quem agride e tenta escapar da responsabilidade. Isso não é entretenimento. Não é show. Não é jogo. É violência.

O episódio escancara algo ainda mais profundo: o machismo estrutural que autoriza alguns homens a acreditarem que mulheres estão ali para serem agarradas, beijadas à força, invadidas. Essa mentalidade mata. Mata no silêncio, mata na omissão, mata quando é relativizada.

Assédio é crime. Silêncio também mata. Denunciar salva vidas. Não podemos normalizar a violência, seja no horário nobre da televisão ou dentro de casa. A sociedade precisa reagir, educar, punir e proteger. Sem relativizar. Sem desculpas. Sem fechar os olhos.

 

Vera Armando
Jornalista e vereadora de Porto Alegre

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