Terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Atendimentos por infertilidade masculina no SUS mais que dobram em uma década

O número de atendimentos relacionados à infertilidade masculina no Sistema Único de Saúde (SUS) mais que dobrou ao longo da última década, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde.

Em 2015, foram registrados 725 atendimentos. Em 2024, o total chegou a 2,5 mil – o maior número da série histórica. Em 2025, até o mês de setembro, já haviam sido contabilizados 1,5 mil registros.

Os dados reúnem atendimentos ambulatoriais e hospitalares registrados nos Sistemas de Informações Ambulatoriais e Hospitalares (SIA e SIH) e não correspondem ao número de pessoas nem a diagnósticos definitivos, já que um mesmo paciente pode realizar mais de um atendimento ao longo do tempo.

Ainda assim, especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que a curva de crescimento reflete uma combinação de mudança de comportamento, maior acesso aos serviços de saúde e aumento de fatores que prejudicam a fertilidade masculina.

“O aumento dos atendimentos não pode ser interpretado isoladamente como aumento direto da prevalência da infertilidade, mas ele mostra que mais homens estão chegando ao sistema de saúde e que os fatores de risco estão mais presentes”, explica Gustavo Guimarães, urologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Uma curva que acelera após a pandemia

Depois de oscilações ao longo dos anos, os registros começaram a subir de forma mais consistente a partir de 2021, período que coincide com a retomada dos atendimentos após a fase mais crítica da pandemia de Covid-19 e com a ampliação do acesso aos serviços de saúde.

Para o urologista e andrologista Rafael Ambar, especialista em Medicina Sexual e Reprodutiva do Homem pela Faculdade de Medicina do ABC e médico do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe), os números dialogam com o que vem sendo observado nos consultórios.

“Esse crescimento não representa apenas mais procura por consultas. Ele também reflete uma maior ocorrência de fatores que prejudicam a fertilidade masculina, como obesidade, sedentarismo, uso de anabolizantes, poluição ambiental e o adiamento da decisão de ter filhos”, afirma.

Infertilidade masculina não é exceção

Na literatura médica, a infertilidade é definida quando não ocorre gravidez após um ano de relações sexuais regulares, sem uso de métodos contraceptivos. Nos casos em que a mulher tem mais de 35 anos ou quando existem fatores de risco conhecidos, a investigação costuma começar antes.

Estudos e a prática clínica indicam que o fator masculino está presente em 40% a 50% dos casos de infertilidade conjugal, seja como causa única ou associada a fatores femininos.

“Durante muito tempo, a investigação começou pela mulher. Hoje, sabemos que isso atrasa o diagnóstico e o tratamento”, explica Romulo Nunes, urologista, médico assistente do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp) e cirurgião geral da Clínica Sartor.

O que mais pesa na dificuldade para engravidar

A infertilidade masculina é um termo amplo, que funciona como um “guarda-chuva” para diferentes alterações clínicas. Entre as causas mais frequentes, especialistas destacam a varicocele – dilatação das veias dos testículos, presente em até 40% dos casos e potencialmente tratável – além de alterações hormonais, infecções do trato genital, doenças genéticas e sequelas de tratamentos oncológicos.

Nos últimos anos, porém, fatores ligados ao estilo de vida e ao ambiente têm ganhado peso crescente. Entre as principais causas de infertilidade, estão: varicocele, condição comum e, em muitos casos, tratável; alterações hormonais, frequentemente associadas ao uso de testosterona e anabolizantes; infecções do trato genital, como clamídia, que podem deixar sequelas; obesidade, sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de álcool; exposição a poluentes ambientais, agrotóxicos e calor excessivo; efeitos tardios de tratamentos oncológicos, como quimioterapia e radioterapia.

Há tratamento – e nem sempre é reprodução assistida

Uma parcela significativa dos casos de infertilidade masculina é reversível, especialmente quando está relacionada a causas adquiridas.

“Tratamento de varicocele, correção de infecções e mudanças de estilo de vida podem melhorar os parâmetros seminais”, diz Nunes. “Essas intervenções costumam levar alguns meses para mostrar resultado, porque o ciclo de produção dos espermatozoides é longo.”

Quando essas medidas não são suficientes, entram em cena as técnicas de reprodução assistida. Em cerca de 20% dos casos, porém, a causa exata da infertilidade não é identificada.

 

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