Terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Banco Central identifica 36 empresas em desvio de R$ 11,5 bilhões no Banco Master

O Banco Central (BC) relaciona um conjunto de 36 empresas como tomadoras de supostos empréstimos fictícios do Banco Master que permitiram o desvio de R$ 11,5 bilhões em recursos por meio de fundos de investimento geridos pela Reag.

O jornal Valor teve acesso à relação das empresas — em geral, de pequeno porte — que consta da comunicação de supostas fraudes feita pelo Banco Central (BC) ao Ministério Público em 17 de novembro, véspera da decretação da liquidação extrajudicial no Master.

Boa parte das empresas é do setor de construção civil, com constituição recente e capitalização pequena, em alguns casos inferior a R$ 1 mil. Há também algumas de maior porte, em setores como alimentos, hoteleiro e importação e exportação. Em determinados casos, há sócios em comum.

As transações chamam atenção por dois motivos. Um deles é que constam da lista empresas que parecem ser de papel, ou seja, sem operações. O trâmite habitual de concessão de empréstimos nos bancos costuma percorrer um percurso padrão: visita ao cliente, desenvolvimento de um relacionamento, comparação com outras empresas do mesmo setor, análise do perfil de risco segundo modelos internos e consultas aos birôs de crédito.

Uma das 36 empresas que constam da relação é a Brain Realty Consultoria e Participações, que tomou um empréstimo de R$ 449,36 milhões, conforme noticiado pela Folha de S.Paulo e confirmado pelo Valor.

O ponto de partida do passeio do dinheiro em todas essas 36 operações é muito semelhante ao da Brain Realty. Depois de tomar o empréstimo, a empresa supostamente ligada ao grupo investia, na maior parte dos casos, os recursos nos fundos D Mais e Bravo, ambos administrados dentro da Reag.

O valor médio supostamente desviado por cada empresa que transitou por esses fundos é de R$ 288 milhões. A Brain foi a que tomou o maior empréstimo, e o menor aporte nos fundos é de R$ 57 milhões. A comunicação ao MP também cita pessoas físicas, mas seus nomes não constavam da relação à qual o  jornal Valor teve acesso.

Os fundos D Mais e Bravo, por sua vez, investiam em outros fundos da Reag, nos quais ocorria, de fato, o desvio de recursos do Master, segundo a comunicação do Banco Central. Um dos mais usados foi o FIDC High Tower.

Esse fundo comprava as chamadas cártulas do Besc, que são títulos que representariam ações do antigo Banco do Estado de Santa Catarina, incorporado pelo Banco do Brasil em 2008.

O High Tower comprava essas cártulas por valores mais baixos no mercado e, depois, lançava esses ativos em seu balanço por um preço bem mais alto. Um conjunto desses papéis, diz a comunicação do BC ao MP, foi comprado pelo fundo High Tower pelo valor de R$ 850 milhões e, mais tarde, sofreu uma reavaliação em seu balanço para R$ 10,8 bilhões.

Na prática, o suposto esquema extraia o dinheiro do Master por meio de empréstimos fictícios às 36 empresas, e o dinheiro era investido nessas cártulas do Besc, pagando preços sobrevalorizados. Quem vendia as cártulas era o High Tower, que antes havia comprado os papéis, que não têm liquidez, por um preço baixo. A diferença de preços é o lucro embolsado pelo suposto esquema de desvio de recursos.

Graças a operações como essa, o fundo informou um retorno anual de 10.502.205,65% em 2024, o que gerou um ganho financeiro de R$ 10,502 bilhões em um ano, mesmo depois de amortizar R$ 6 bilhões em cotas. O lucro era, em sua maioria, às custas das 36 empresas que haviam tomado empréstimos supostamente fictícios do Banco Master — e, no início da cadeia, estavam os depósitos que os clientes confiaram fiduciariamente ao banco de Daniel Vorcaro, com garantia do FGC.

Uma vez feito o suposto desvio de recursos, começava o processo de lavagem de dinheiro, para ocultar os verdadeiros beneficiários. O dinheiro desviado era investido e reinvestido em um conjunto de fundos exclusivos, praticamente todos ligados à Reag. No fim, o dinheiro terminava na mão de um laranja do esquema.

No seu relatório ao MP, o Banco Central faz um detalhamento de todas as transferências de recursos, destacando a coincidência de valores e os dias e horários em que os recursos eram movimentados. No caso da Brain Realty, segundo o rastreamento do BC, o dinheiro no fim voltou para o Banco Master sob a forma de uma aplicação em CDB.

A autoridade monetária destaca seis fundos ligados à Reag que tiveram forte participação nessas movimentações: Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Maia 95 e Anna. A Reag é um dos principais personagens da Operação Carbono Oculto, ocorrida em agosto de 2025, que apurou o uso de fundos de investimento para lavar e ocultar dinheiro do PCC. Com informações do portal Valor Econômico.

 

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Banco Central alertava Banco Master desde 2024
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