Quinta-feira, 05 de fevereiro de 2026

Banco Central se nega a fornecer informações sobre reuniões entre Alexandre de Moraes e seu presidente

O Banco Central (BC) se negou formalmente a fornecer detalhes sobre reuniões realizadas entre o presidente do órgão regulador, Gabriel Galípolo, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes sob o argumento de risco à segurança da sociedade e do próprio Estado. A instituição informou ainda que não documenta encontros entre seu dirigente e “altas autoridades da República”.

Moraes procurou Galípolo ao menos quatro vezes para pressionar em favor do Master, que à época dependia do aval do regulador à compra de seus ativos pelo Banco BRB. O BC vetou o negócio em setembro do ano passado por decisão unânime da diretoria.

As intervenções do ministro ocorreram ao mesmo tempo em que o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, mantinha um contrato de R$ 129 milhões – uma remuneração mensal de R$ 3,6 milhões ao longo de três anos – com escopo amplo e sem especificar uma causa ou processo específicos.

A informação de que o BC não documenta reuniões com altas autoridades da República contrasta com declarações públicas de Gabriel Galípolo. Em coletiva de imprensa no dia 18 de dezembro, o presidente da instituição declarou que todas as reuniões, trocas de mensagens e comunicações relacionadas ao caso Master foram documentadas.

“Do ponto de vista da questão do Master, sabia que esse é um caso que tem que ser absolutamente gabarito. Ele é um gabarito completo porque a gente precisa que todo o processo se sustente ao longo do tempo. A gente documentou. Documentamos tudo: cada uma das ações que foram feitas, cada uma das reuniões, cada uma das trocas de mensagens, cada uma das comunicações. Tudo isso está devidamente documentado”, declarou Galípolo à época.

As informações foram requisitadas ao Banco Central pela equipe da coluna através da Lei de Acesso à Informação (LAI) na plataforma Fala.Br do governo federal, com o apoio da Fiquem Sabendo, ONG especializada no acesso a informações públicas.

Ao todo, cinco pedidos diferentes foram encaminhados e todos foram rejeitados pelo BC – incluindo a relação completa de reuniões, encontros presenciais ou online e contatos por vídeo ou por telefone entre Moraes e Galípolo, com a indicação da data e horários de início e término.

Nós indagamos ao BC se foi produzido algum documento, informe ou ata sobre as reuniões, contatos presenciais, por vídeo ou por telefone, entre Galípolo e Moraes entre março de 2025, quando o BRB anunciou a compra do banco de Daniel Vorcaro e o negócio passou a ser avaliado pelo órgão regulador, e dezembro do mesmo ano.

A instituição admitiu ainda “não manter registro das discussões ocorridas em tais reuniões”, mesmo que sob sigilo. A Lei de Acesso à Informação determina que o Estado registre e preserve informações de interesse público. Quando questionado sobre encontros que tenham tratado sobre quaisquer outros assuntos, a resposta do regulador foi a mesma.

Lei Magnitsky

O Banco Central citou a aplicação da Lei Magnitsky pelo governo Donald Trump contra o ministro do Supremo como argumento para não fornecer os dados solicitados.

Oficialmente, Galípolo e o magistrado dizem ter se encontrado para tratar sobre as restrições financeiras impostas pela legislação americana, criada originalmente para combater o terrorismo e violadores de direitos humanos na esfera internacional e que também foi aplicada posteriormente contra Viviane e uma empresa mantida pela família, a Lex Instituto de Estudos Jurídicos. Em dezembro, Trump recuou das medidas.

De acordo com o órgão, as reuniões entre “altas autoridades da República” não são divulgadas quando o tema do encontro envolve “riscos à salvaguarda e à segurança da sociedade e do Estado”, com base em um decreto assinado por Jair Bolsonaro em 2021 sobre a transparência de agendas públicas.

Em pelo menos uma ocasião o ministro do Supremo se encontrou presencialmente com o presidente do BC para conversar sobre os problemas de liquidez enfrentados pelo Master, assunto que também abordou em telefonemas.

Os relatos sobre as conversas entre o dirigente da instituição e Alexandre de Moraes foram feitos na ocasião por seis fontes diferentes ao longo de dezembro. Uma delas ouviu do próprio magistrado sobre o encontro com Galípolo, e as outras cinco souberam dos contatos por integrantes do BC.

O Banco Central também rejeitou pedidos de acesso à informação sobre eventuais relatos, informações ou documentos que citasse contatos do Moraes ou de outros ministros do STF, integrantes do governo Lula, senadores e/ou deputados com Galípolo em reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) entre março e dezembro de 2025.

O regulador afirmou que a participação nas reuniões do colegiado é restrita “aos agentes do Banco Central indicados” no regulamento do Copom, mas não esclareceu se Galípolo mencionou ou não os diálogos com Moraes nestas reuniões. (Com informações da colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo)

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