Quarta-feira, 01 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 31 de março de 2026
Um documento interno produzido pelo Banco Regional de Brasília (BRB) aponta que, à época do anúncio da compra de ativos do Banco Master, a equipe técnica da instituição já tinha conhecimento de fragilidades em parte das carteiras de crédito consignado oferecidas pela instituição controlada por Daniel Vorcaro. Segundo o relatório, havia indícios de que determinados contratos não possuíam lastro, ou seja, careciam de garantias formais que assegurassem a validade das operações.
O termo “lastro” refere-se justamente à existência de uma garantia que sustente determinada transação. No caso do crédito consignado, essa garantia é representada por um documento que autoriza o desconto das parcelas diretamente no contracheque do tomador do empréstimo, geralmente vinculado a um órgão público ou entidade pagadora.
O material foi elaborado por um grupo de trabalho constituído pelo próprio BRB com o objetivo de analisar o processo de aquisição de carteiras de crédito no mercado, incluindo operações realizadas com o Banco Master. Ao todo, foram produzidos dois relatórios, um em abril e outro em maio, que consolidam as avaliações feitas pela equipe técnica ao longo desse período.
A análise levou em consideração um universo de 1,9 milhão de contratos adquiridos, distribuídos entre cerca de 615 mil clientes. A média estimada indicava que cada cliente possuía aproximadamente três contratos de empréstimo vinculados ao Banco Master, o que chamou a atenção dos técnicos pela concentração de operações.
Um dos principais pontos levantados diz respeito à ausência de averbação verificável em parte dos contratos. Em reunião realizada entre representantes das duas instituições, em abril de 2025, a equipe do BRB registrou a dificuldade de validar determinadas operações cedidas.
“Foi informado pelo Banco Master que existem operações cedidas ao Banco BRB que foram adquiridas por uma ‘Associação’, e que tais contratos não são passíveis de verificação da averbação por meio de consulta assistida”, afirma o documento.
Na prática, isso significa que, embora os contratos previssem desconto consignado em folha de pagamento, não havia registro formal dessas autorizações junto às entidades responsáveis pelos contracheques. Ou seja, tratava-se de operações sem reconhecimento oficial para a realização dos descontos, o que compromete a segurança jurídica e financeira dessas transações.
Além disso, o grupo de trabalho apontou fragilidades nos controles internos do Banco Master. De acordo com o relatório, a instituição mantinha o gerenciamento das operações de crédito por meio de planilhas eletrônicas, com limitações de dados e ausência de padronização, o que dificultava a verificação detalhada de cada contrato negociado.
Outras inconsistências identificadas incluíam divergências no cálculo dos valores a serem recebidos pelo Banco Master na negociação com o BRB, bem como a existência de parcelas vencidas sem a devida atualização de juros e multas. Esses fatores, segundo a análise técnica, ampliavam o risco associado às operações adquiridas.
Os documentos internos reforçam que os apontamentos já eram de conhecimento da equipe técnica no momento em que as negociações estavam em curso, evidenciando preocupações quanto à qualidade dos ativos envolvidos. (Com informações do portal de notícias g1)