Sábado, 16 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 16 de maio de 2026
A Polícia Federal (PF) vai abrir uma investigação para apurar os acertos de repasse de dinheiro entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e pré-candidato à Presidência da República. Uma das linhas de apuração a ser verificada é se os recursos foram desviados para um fundo sediado no Texas ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e usados para custear a permanência dele no país, já que o Supremo Tribunal Federal (STF) havia bloqueado contas e dificultado o recebimento de recursos nos EUA.
Conforme diálogos revelados na última semana pelo site Intercept Brasil, Flávio pediu a Vorcaro uma contribuição equivalente a US$ 24 milhões (R$ 134 milhões, em valores da época), sob o argumento de que os valores serviriam para patrocinar a produção do filme “Dark Horse”, sobre Bolsonaro.
As informações constam em diálogos encontrados pela PF no celular do banqueiro, que também indicam que foram efetivamente feitos repasses no valor de US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) entre fevereiro e maio de 2025. O Intercept diz que parte do dinheiro, pelo menos US$ 2 milhões, foi transferida pela Entre Investimentos e Participações – suspeita de atuar em parceria com empresas de Vorcaro – para o fundo Havengate Development Fund LP, com sede no Texas.
O fundo tem como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, de Paulo Calixto, advogado próximo a Eduardo. O Grupo Entre, controlador da Entre Investimentos e Participações, disse ao Intercept que “não existe vínculo societário, de controle ou de governança da empresa” com Vorcaro.
Flávio classificou Calixto como “advogado de confiança” do irmão. Segundo ele, o dinheiro foi “integralmente” direcionado à produção do filme. “Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados nesse fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme.”
“Para colocar de pé uma estrutura dessa, criar um fundo, cuidar das questões legais, de burocracia, você tem que contratar um advogado, um advogado de confiança do Eduardo Bolsonaro, alguém que cuidou de todo o seu processo de green card. Está dentro do contexto do filme. O advogado é gestor do fundo também”, disse o senador.
“Gestor do fundo”
“Minha participação foi buscar investidores, dinheiro privado. Qualquer recurso privado que tenha sido aplicados nesse fundo foi integralmente para a produção do filme. E, se foi algum recurso para o escritório de advocacia, eu não sei se foi”, completou o pré-candidato do PL.
Flávio acrescentou que o fundo é fiscalizado pela Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais dos EUA, equivalente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no Brasil. Segundo ele, a estrutura presta contas regularmente à autoridade americana e, caso houvesse irregularidade, os gestores teriam sido formalmente notificados.
A relação entre o Grupo Entre e Vorcaro não é direta, e aliados de Eduardo usam isso para se afastar do escândalo. Nos diálogos entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, divulgados pelo Intercept, o banqueiro sugere fazer o pagamento “via entre”, em possível referência à Entre Investimentos e Participações. Zettel escreve que o “câmbio do Master está criando caso”, ou seja, dificultando os pagamentos solicitados.
Além disso, o Master pagou R$ 2,329 milhões à Entre Investimentos, segundo declarações de Imposto de Renda do banco, conforme informações do jornal O Globo.
A suspeita de envolvimento de Eduardo foi citada em documento elaborado pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), autor de uma das representações à PF pedindo apuração dos fatos.
Versões
Quando questionado pela primeira vez sobre o assunto, Flávio chegou a dizer que era “mentira” que o filme sobre seu pai tivesse recebido financiamento do dono do Master. Após a divulgação dos diálogos pelo Intercept, o senador divulgou nota admitindo a troca de mensagens e defendendo a instauração de uma CPI do Banco Master.
Porém, o deputado federal Mário Frias (PL-SP) – produtor executivo do filme, e a empresa GoUp Entertainment, responsável pela execução do projeto cinematográfico, divulgaram notas assegurando que nenhum recurso de Vorcaro chegou até eles. A versão contradiz a informação de Flávio, que declarou haver prestações em atraso da ajuda financeira do dono do Master e que, por isso, entrou em contato com Vorcaro pedindo pagamentos.
Frias afirmou “não haver contradição” entre as versões divulgadas por ele, pela produtora do longa e por Flávio. “Quando afirmei anteriormente que não há ‘um centavo do Master’ no filme, referia-me ao fato de que Daniel Vorcaro não é e nunca foi signatário de relacionamento jurídico, assim como o Banco Master nunca figurou como empresa investidora. O nosso relacionamento jurídico foi firmado com a Entre, pessoa jurídica distinta”, disse o deputado por meio de nova nota. (Com informações de O Estado de S. Paulo)