Quinta-feira, 05 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 15 de fevereiro de 2025
O bom desempenho do real visto em janeiro se estendeu para este mês fevereiro e levou o câmbio doméstico a encerrar a sexta-feira no menor nível desde 7 de novembro, com o dólar abaixo da marca simbólica de R$ 5,70.
Embora a moeda americana tenha se distanciado dos patamares históricos vistos no fim de 2024, o real permanece desvalorizado frente ao dólar e ainda tem algum espaço para apreciação no curto prazo. Essa é a avaliação de alguns bancos estrangeiros, que, inclusive, têm recomendado posições compradas (aposta na alta) em real, apesar de vislumbrarem um caminho volátil à frente.
É o que aponta, em particular, a estrategista Teresa Alves, do Goldman Sachs, para quem a moeda brasileira ainda reserva perspectivas atraentes de retorno, em um ambiente que contempla “valuations” (avaliações de mercado) ainda baratos; carrego atraente devido ao elevado diferencial de juros (diferença entre as taxas no Brasil e em outros países, que permite captar mais barato no exterior e investir aqui); e aumento do carrego ajustado pela volatilidade (“carry-to-vol”), o que indica que posições compradas no real “permanecem atraentes”.
Desde o fim de 2024, o Goldman Sachs tem mantido em suas recomendações posições vendidas em euro contra o real, ou seja, uma aposta na queda da moeda única em relação à divisa brasileira. O euro acumula queda de 6,93% contra o real neste ano, o que levou o banco americano a ajustar os níveis de “stop” (ordem que encerra o investimento quando o ativo atinge determinado preço) e de alvo da posição, que continua a recomendar apostas na valorização do real.
“E, mesmo com algumas mudanças, achamos que a política monetária continua a ser um vento favorável e que deve permanecer assim enquanto os juros reais continuarem elevados”, afirma Alves. “Mas, após um forte rali, podemos ver mais volatilidade no ‘spot’ [à vista], especialmente à medida que o ruído fiscal aumentar no fim do mês. Além disso, o Brasil está entre os países que podem ser mais negativamente impactados pelas tarifas recíprocas dos EUA.” A estrategista mantém a recomendação de posições vendidas em euro contra o real.
Segundo ela, ao observar os modelos, a valorização recente do real está mais relacionada a uma redução do prêmio de risco específico do Brasil, na medida em que os temores de dominância fiscal diminuíram, e a uma melhora nos termos de troca. Em horizontes mais longos, Alves avalia que ainda há uma diferença de cerca de 10% entre o desempenho do real e o valor apontado pelo modelo do banco como “justo”.
“Isso sugere que o real tem espaço para se valorizar ainda mais em relação aos fundamentos. No entanto, acreditamos que, para desbloquear essa apreciação de forma sustentada, é necessária uma articulação clara e um compromisso com a âncora fiscal no médio prazo”, diz a estrategista do Goldman.
Outros bancos americanos também veem espaço para uma continuidade da valorização do real no curto prazo e têm apostado nisso em suas recomendações. Desde novembro, o Bank of America mantém posições compradas em real contra o peso colombiano. O argumento é que o processo de aperto das condições monetárias deve continuar a apoiar a moeda brasileira, enquanto as expectativas de corte nos juros na Colômbia influenciam o peso, embora o banco central do país tenha feito uma pausa na flexibilização monetária.
Na semana passada, o Citi abriu posição comprada no real e no shekel israelense contra o rand sul-africano. Para os estrategistas do banco, as notícias políticas e fiscais no Brasil devem permanecer “relativamente contidas” enquanto o governo define o escopo e a magnitude da reforma ministerial e negocia com as novas lideranças do Congresso. Nesse contexto, o banco avalia que “o real tende a reagir bem a impulsos positivos de fluxo de entrada para títulos públicos, mas ainda é cedo para contar com isso de forma significativa”.
Em relatório a clientes, o economista-chefe para Américas do Natixis, Benito Berber, observa que o movimento se dá com as moedas da América Latina e avalia ser “notável” a valorização dessas divisas em um contexto de ameaças tarifárias pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e de uma redução no espaço para cortes nos juros pelo Federal Reserve, o banco central americano. “Parte da explicação tem a ver com um dólar mais fraco e euro mais forte, já que talvez o mercado não esteja levando tão a sério a ameaça de tarifas”, diz ele, que também cita a valorização dos preços de commodities metálicas.
Em revisão de cenário divulgada na sexta-feira, o Santander continuou a projetar o dólar a R$ 6 no fim deste ano. O banco avalia que as condições externas ainda são adversas e podem incluir a queda nos preços das commodities. No mercado local, pesa a necessidade de aprovação de medidas fiscais no Congresso. As informações são do portal Valor Econônico.