Sexta-feira, 20 de março de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 20 de março de 2026
O segundo dia da BIOTECH FAIR, nos pavilhões da FIERGS em Porto Alegre, confirmou uma mudança de tom em relação à abertura do evento: menos apresentação institucional e mais aprofundamento técnico. Se na estreia o entusiasmo dominou, agora o que se vê é um setor preocupado em estruturar soluções viáveis, seguras e escaláveis para a transição energética.
Com três auditórios operando simultaneamente — reunindo, ao longo dos três dias, cerca de 120 palestrantes —, a programação desta quinta-feira foi marcada por discussões densas sobre implantação de projetos, eficiência operacional e novos modelos de negócio. O foco saiu do “potencial” e avançou para o “como fazer”.
Entre os destaques, chamou atenção a participação do engenheiro Sebastião Carlos Martins, que veio de Minas Gerais para apresentar seu método de avaliação de viabilidade e riscos em projetos de bioenergia. Diferentemente de abordagens mais genéricas, sua proposta se concentra na engenharia aplicada e na análise integrada de dados técnicos e financeiros. O modelo permite antecipar falhas, mensurar riscos operacionais e projetar cenários econômicos com maior precisão — algo essencial em um setor que exige investimentos elevados e margens bem calculadas.
Outro ponto alto do dia foi o debate sobre hidrogênio de baixo carbono, tema que atravessou diferentes painéis e ganhou relevância estratégica. Nesse contexto, foi apresentado um dos projetos contemplados pelo Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Hidrogênio Verde (H2V-RS), iniciativa do governo gaúcho voltada a impulsionar a produção, o uso e a infraestrutura do hidrogênio como fonte energética limpa.
Entre os contemplados está a Rodoplast, que desenvolve um projeto em parceria com a Ambientalplast e a Universidade de Caxias do Sul. A proposta combina produção de hidrogênio de baixo carbono com gestão de resíduos, dentro de uma lógica de economia circular. Trata-se de um exemplo concreto de como inovação tecnológica e sustentabilidade podem convergir em soluções industriais com potencial de escala.
O biogás também teve espaço relevante ao longo do dia. Painéis técnicos apresentaram tecnologias, normativos e aplicações práticas, evidenciando um setor que já avança para maior maturidade. Mais do que uma alternativa energética, o biogás se consolida como parte de um sistema integrado de aproveitamento de resíduos e geração de valor.
Nesse cenário, ganhou força o debate sobre crédito de carbono e outros ativos ambientais. Esses instrumentos funcionam como uma espécie de “moeda verde”: empresas que reduzem suas emissões de gases de efeito estufa podem converter esse ganho ambiental em créditos negociáveis no mercado. Além disso, outras iniciativas de descarbonização — como produção de biometano ou hidrogênio limpo — também geram ativos que podem ser monetizados. Na prática, isso significa transformar eficiência ambiental em retorno financeiro, atraindo investidores e acelerando a transição energética.
Enquanto os debates se desenrolavam nos auditórios, a área de exposição seguia como vitrine de soluções aplicadas. Um dos destaques foi a GAS FUTURO, sediada em Campo Largo, no Paraná. A empresa apresentou tecnologias para toda a cadeia do gás natural e do biometano, do campo ao consumo final.
Entre os equipamentos expostos estavam os dispensers — semelhantes às bombas de combustíveis líquidos ou aos pontos de recarga elétrica —, além de compressores que permitem comprimir o gás para armazenamento em cilindros e transporte até o local de uso, como postos de abastecimento. Segundo Marcos Martins, gerente de vendas, a empresa também oferece unidades auxiliares de refrigeração a gás, sistemas de armazenamento, estações redutoras e carretas para transporte.
A proposta é clara: atender desde propriedades rurais que capturam metano em lagoas de dejetos até o consumidor final. Essa integração mostra como o setor está evoluindo para soluções completas, conectando produção, logística e uso em uma mesma cadeia.
O segundo dia da BIOTECH FAIR deixou evidente que o avanço da economia verde depende menos de promessas e mais de projetos consistentes. Entre metodologias técnicas, projetos estruturados e novos instrumentos financeiros, o evento mostra que o Brasil já possui não apenas potencial, mas caminhos concretos para liderar a transição energética.
Com maior presença de investidores e debates cada vez mais qualificados, a feira reforça seu papel como ponto de encontro entre inovação e mercado. Para quem ainda não participou, ainda há uma oportunidade: amanhã acontece o terceiro e último dia do evento.
Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética