Sábado, 27 de novembro de 2021

Bispos franceses admitem “responsabilidade institucional” da Igreja em casos de pedofilia

Bispos franceses reconheceram a responsabilidade institucional da Igreja Católica e a dimensão sistêmica dos abusos sexuais cometidos contra menores de idade. Há um mês, relatório de uma comissão independente confirmou que membros da igreja abusaram de mais de 216 mil crianças e adolescentes nos últimos 70 anos.

Em declaração pública durante a reunião anual dos religiosos em Lourdes, cidade conhecida por ser palco da peregrinação católica, o presidente da Conferência Episcopal francesa, Éric de Moulins-Beaufort, disse que a responsabilidade “implica um dever de justiça e reparação”. O reconhecimento pela instituição era uma das mais de 40 recomendações feitas em um relatório sobre o tema.

O documento de mais de 2.000 páginas, produzido por uma comissão independente, mostrou que a Igreja Católica francesa abrigou entre 2.900 e 3.200 pedófilos, em um universo de 115 mil religiosos, de 1950 a 2020. No período, mais de 200 mil menores, a maioria meninos com idade entre 10 e 13 anos, foram abusados sexualmente.

Neste sábado (6), bispos, sacerdotes, membros de ordens religiosas e fiéis se reuniram em um santuário de Lourdes para uma oração de penitência em homenagem às vítimas. “Queremos deixar gravado um testemunho visual que lembrará tanta violência, dramas e agressões”, declarou Hugues de Woillemont, porta-voz da Conferência Episcopal.

Uma pintura de um menino chorando foi colocada no local como um monumento em memória às vítimas. A obra foi produzida por uma das vítimas, que estava presente. Durante a cerimônia, outra pessoa que foi abusada por um membro da Igreja francesa na infância leu um texto sobre a violência sofrida. Mais de 120 bispos e dezenas de fiéis participaram de uma oração, alguns deles ajoelhados.

Em Lourdes, segundo a tradição, a Virgem Maria apareceu em 1858 para uma adolescente de 14 anos. O local costuma ser visitado por milhares de peregrinos todos os anos, algo que foi interrompido durante a pandemia de coronavírus.

A investigação francesa seguiu os passos da Igreja Católica em países como Austrália, Irlanda, Estados Unidos e Alemanha, onde também houve medidas para apurar o alcance dos abusos sexuais cometidos nas últimas décadas.

Olivier Savignac, presidente do grupo de vítimas Parler et Revivre (falar e reviver) disse que o anúncio dos bispos é uma “primeira etapa muito importante” e que espera especialmente pelas decisões que serão adotadas após o reconhecimento da responsabilidade.

Ainda que o reconhecimento tenha sido benquisto, as revelações do relatório sobre abusos sexuais expuseram divergências entre a Igreja e o governo francês. Um dos pontos sensíveis reside no sigilo das confissões realizadas na instituição.

O bispo Moulins-Beaufort, pouco após a divulgação do documento, pediu perdão às vítimas, mas emendou, em entrevista a uma TV local, que “o sigilo da confissão se impõe e é mais forte que as leis”. Na prática, um padre que ouve a confissão de um crime grave de um fiel no confessionário não pode informar a polícia, já que o sigilo é absoluto em virtude do direito canônico, detalhou.

A resposta do governo veio pouco depois. Gabriel Attal, porta-voz do governo de Emmanuel Macron, disse que “nada é mais forte que as leis”. Ainda que Paris considere a confissão um sigilo profissional, calcula que há exceções: o segredo não se aplicaria, por exemplo, a confidências sobre agressões contra menores de 15 anos.

Entre as recomendações feitas pela comissão independente que apurou os abusos, está que a Igreja deixe claro que a confissão não acoberta esse tipo de crime e que isso deve ser denunciado às autoridades policiais.

Moulins-Beaufort insistiu que o sigilo traz confiança tanto para as vítimas quanto para os agressores. “[As vítimas] teriam confiança [para confessar] se pensassem que [o que for dito] não permanecerá em sigilo? Não vamos roubar-lhes essa possibilidade”, disse o presidente da Conferência Episcopal francesa.

A comissão de investigação sobre abusos sexuais foi estabelecida por bispos católicos no final de 2018 e começou os trabalhos no início de 2019, com a meta de lançar luz sobre os casos de abuso sexual e pedofilia e tentar restaurar a confiança pública na igreja em um momento de diminuição das congregações católicas no país. ​

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