Segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 19 de janeiro de 2026
Você conhece esse lugar… Talvez não saiba o endereço, mas ele existe na sua memória: piso irregular que faz o copo balançar, paredes com tinta descascando como se o tempo tivesse passado devagar e decidido ficar ali mesmo, tomando uma cerveja.
No canto, canecas de chope de porcelana enfileiradas em uma prateleira como medalhas de uma guerra cotidiana. No balcão, garrafas e vidros em conserva: abacaxi, butiá, ovo cozido em conserva com data desconhecida e algumas “coragens líquidas” que ninguém sabe ao certo se são bebida ou algum tipo de iniciação ritualística.
O ar é inebriante. Tem cheiro de churrasquinho de esquina e histórias contadas por veteranos que podem prender sua atenção por noites inteiras.
Lá dentro, quase sempre há uma mesa de sinuca torta e irregular, e nela jogam senhores aposentados que fazem coisas que desafiam a própria física.
Se Isaac Newton estivesse vivo e presente nesses momentos, certamente puxaria seu bloco de notas do bolso e começaria a fazer cálculos heréticos tentando achar uma explicação lógica para essas jogadas absurdas, onde bolas rolam em curvas impossíveis e tacadas sem mira causam o maior alvoroço no boteco.
E, no fim, sorrisos cansados e a alma leve são a maior recompensa desses jogos. Esses verdadeiros atletas da sinuca normalmente estão, digamos assim, levemente embriagados, e também perigosamente felizes.
E, como em todo verdadeiro templo sagrado, há um altar: esse não é para qualquer um. Esse altar pertence à elite dos veteranos, uma mesa de madeira gasta onde os mais velhos e experientes jogam dominó com a seriedade e a dedicação de quem está participando de um campeonato mundial de xadrez.
As peças batem na mesa com um som seco e sagrado, como se marcassem o compasso do mundo e determinassem o ritmo da noite. Entre uma jogada e outra, aparecem os petiscos: linguiçinha assada, ovo cozido saindo daquele vidro misterioso, torresmo crocante, salsichão na grelha improvisada, pão que chega na hora certa.
Pelo menos uma vez por semana, alguém resolve virar churrasqueiro. E aí o boteco lota.
É claro que não poderia faltar aquele filósofo de boteco, que nessas horas está presente como arauto que declara aberta a sessão de degustação.
A cerveja? Esta, meus amigos, sempre está estupidamente gelada, e a garrafa normalmente forma aquela leve cobertura de gelo por fora ao ser retirada do freezer, porque isso é praticamente uma cláusula pétrea da Constituição do boteco raiz.
Muita gente acha que esse lugar é perigoso. Mas não é. Perigoso é banco com juros altos; ali dentro mora outra coisa…
É comum encontrar: aposentados com histórias maiores que eles; o filósofo de boteco que explica o mundo em três frases tortas e verdadeiras; o peão de obra que senta para desopilar a alma e os ombros; o antigo colecionador de discos com um verdadeiro tesouro escondido em casa; e, volta e meia, um ou outro empresário, que passa discretamente só para abraçar os velhos amigos.
Não é chique, é melhor que isso: é acolhedor. Ali, todos entram sem título e sem fantasia. Trabalhadores, aposentados, empresários, sem pose, sem verniz e sem esse teatrinho social que a cidade exige.
Marginal não se cria ali: sempre há um avô, um pai, um amigo de alguém que frequenta aquele local. Isso torna aquele espaço intocável. É território sagrado, e sagrado se respeita…
A noite corre fácil. Cerveja gelada. Conversas que não querem chegar a lugar nenhum. Risadas que chegam antes da piada. Sinuca, dominó, petisco, gente, e uma sensação silenciosa de pertencimento.
Esses lugares não servem só bebida. Eles servem descanso emocional. No boteco raiz, nenhum homem precisa provar nada…
Ele pode falar besteira, contar vantagem, confessar medo, rir alto, ouvir história repetida pela décima vez entre uma garrafa e outra, e achar boa de novo.
No fim das contas, o boteco raiz é menos um bar e mais um abrigo. Lugar onde as máscaras caem, e ninguém se assusta com o rosto real de ninguém.
Porque, às vezes, tudo o que um homem precisa para continuar é isso:
uma mesa torta, um copo com cerveja gelada, um amigo que escuta… e a certeza silenciosa de que ele não está enfrentando o mundo sozinho.
Às vezes, tudo o que um homem deseja é de um cantinho simples da vida, cercado por gente de verdade.
* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho