Sábado, 10 de janeiro de 2026

Brasil tem 300 mil pessoas com mais de 60 anos com autismo

Um estudo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) estimou a prevalência do transtorno do espectro autista (TEA) entre idosos no Brasil. Segundo os pesquisadores, o País tem cerca de 300 mil pessoas com 60 anos ou mais convivendo com algum grau da condição.

A pesquisa, intitulada Envelhecimento invisível: TEA autorrelatado no Brasil e os desafios do reconhecimento tardio, foi publicada na revista científica International Journal of Developmental Disabilities e teve como base os dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o primeiro a mapear a prevalência do TEA no País.

De acordo com os autores, a prevalência de TEA entre idosos é de 0,86%, o que corresponde a 306.836 indivíduos. A taxa é maior entre homens (0,94%) do que entre mulheres (0,81%).

Para a pesquisadora Uiara Raiana Vargas de Castro Oliveira Ribeiro, primeira autora do estudo, os números devem ser interpretados como estimativas porque o IBGE considerou o diagnóstico autorreferido. Em outras palavras, os entrevistados relataram se haviam sido diagnosticados com a condição por um profissional de saúde, sem necessidade de apresentação de exames ou laudos. “O que não permite confirmar se essas pessoas possuem, de fato, diagnóstico e em qual momento da vida foi feito”, explica Uiara.

Ainda assim, a estimativa ajuda a delinear o perfil da população com TEA no Brasil. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que cerca de 70 milhões de pessoas no mundo vivem com algum grau do transtorno, caracterizado por dificuldades persistentes na comunicação e na interação social.

Todo idoso com autismo convive com a condição desde a infância e, segundo Uiara, o diagnóstico em adultos e idosos tem aumentado nos últimos 15 anos, o que evidencia um histórico de subdiagnóstico. “Essa é uma geração que envelheceu sem o reconhecimento formal da condição”, diz a pesquisadora.

Em muitos casos, de acordo com Uiara, essas pessoas aprenderam a conviver com os sintomas, chegando a mascará-los por exigências sociais, o que dificulta a identificação. O próprio conceito de TEA passou por mudanças e características que antes não eram incluídas no espectro hoje são reconhecidas, ou seja, sinais da condição podem ter passado despercebidos na infância desses idosos.

Além disso, manifestações do transtorno são confundidas com mudanças atribuídas ao envelhecimento, conta a cientista. “Um dos marcos muito presentes no transtorno do espectro autista é a inflexibilidade cognitiva. Às vezes, esse indivíduo envelhece e ganha a alcunha de ‘pessoa idosa teimosa’, mas ele pode ter a inflexibilidade cognitiva do TEA e nunca ter recebido um tratamento adequado.”

Sintomas

Psiquiatra da infância e adolescência e coordenador do Programa de Transtorno do Espectro Autista (Protea) da Universidade de São Paulo (USP), Fábio Pinato Sato explica que o diagnóstico tende a ser mais difícil na velhice. “Existe grande adaptação e acomodação dos sintomas considerados leves, que podem se confundir com traços de personalidade.”

Os critérios diagnósticos são os mesmos em todas as faixas etárias, mas os sintomas podem se manifestar de forma diferente ao longo da vida. Por isso, segundo especialistas, é fundamental considerar a trajetória individual para compreender como o autismo se expressa, especialmente após os 60 anos. Isolamento social, interesses específicos, dificuldade para interpretar expressões e rotinas rígidas são alguns dos sinais de autismo. Quem convive com o transtorno pode apresentar também crises sensoriais, como o meltdown (descontrole emocional) e o shutdown (isolamento e uma espécie de paralisia), geralmente provocadas por excesso de estímulos auditivos, luminosos ou estresse.

Estudos apontam ainda que pessoas no espectro têm maior risco de desenvolvimento de transtornos mentais, como ansiedade e depressão, além de condições cardiovasculares e metabólicas, o que pode afetar a expectativa de vida. “A ausência do diagnóstico precoce na infância acarreta muitos prejuízos, pois priva o indivíduo de fazer todas as terapias multiprofissionais que podem mitigar e impulsionar as conquistas para se ter uma vida autônoma e funcional o máximo possível”, diz Sato.

Políticas públicas

A subnotificação também afeta a formulação de políticas públicas. Para Uiara, existe a necessidade de ampliar a capacitação de profissionais para o diagnóstico de TEA em pessoas idosas no Sistema Único de Saúde (SUS). “Identificar esses indivíduos é um passo fundamental, mas isso só será possível com mais estudos, ferramentas diagnósticas adequadas e profissionais preparados para reconhecer o transtorno na população idosa”, aponta a pesquisadora. Sato concorda. “Falta conhecimento teórico e prático.” Com informações da Agência Brasil e O Estado de S. Paulo.

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