Sábado, 22 de junho de 2024

Brasileiros repatriados de Israel contam o que sentiram ao deixarem o Oriente Médio em meio à guerra

No último dia 23, pousou no aeroporto do Galeão, na Ilha do Governador, Zona Norte, o oitavo e último voo de repatriação de brasileiros em Israel, enviado pela Força Aérea Brasileira (FAB) na Operação Voltando em Paz, com 209 passageiros, incluindo 12 crianças de colo, todos fugindo da guerra entre Israel e o grupo islâmico Hamas, iniciada no dia 7 de outubro.

“Sinto que estou abandonando Israel de certa forma, mas a situação está sem controle”, desabafa a estudante Hana Levi, de 17 anos, que estava fazendo intercâmbio no país e teve que voltar às pressas para o Rio, sua cidade natal, no voo da FAB. Mesmo tendo vivenciado um cenário de guerra e vários disparos de sirene de alerta após lançamentos de foguetes e mísseis em direção a Israel, a jovem gostaria de ter continuado no país: “Meus pais estavam muito preocupados aqui no Brasil, então a decisão de eu voltar foi deles”, completa.

Hana estava no meio de uma reza, em uma sinagoga da cidade de Haifa, no Norte, quando o Hamas, organização extremista do Estado da Palestina, iniciou os ataques ao vizinho árabe. Por ser sábado, chamado pelos judaicos de “Shabat”, dia dedicado ao descanso, os judeus, entre outras restrições, não trabalham e não podem utilizar o telefone. Por isso, Hana estranhou quando viu uma movimentação estranha no meio da reza, com pessoas fazendo uso do celular e também indo embora da sinagoga, principalmente homens. Ela sabia que algo grave estava acontecendo.

Em companhia da amiga Raquel Zeitouni, 17, também brasileira e intercambista, voltou para a casa da família israelense onde estavam hospedadas para o feriado de Sucot, também conhecido como “Festa dos Tabernáculos” ou “Festa das Cabanas” (ela e Raquel moram na cidade de Kfar Saba, na região central), para ajudá-la com o filho e a casa, já que o marido havia sido convocado urgentemente para o exército: “Ficamos muito aflitas e tensas. A situação foi tão grave que até os reservistas foram chamados”, afirma Raquel. Nas primeiras 48 horas de guerra, Israel chegou a convocar 300 mil da reserva.

Com medo, Raquel e Hana ainda ficaram uma semana em Haifa, apenas com a roupa do corpo. Ensaiaram uma saída para levar doações para uma família que havia chegado do Sul, mas a sirene de alerta tocou no meio do caminho, e elas tiveram que se abrigar em um prédio em obras. Por conta do temor, voltaram para casa correndo. Só saíram de lá quando uma tia de Hana as buscou de ônibus e as levou para outra cidade: “Começamos a tremer e ficamos muito assustadas. Só confiamos na vinda da tia de Hana, pois tínhamos muito medo de infiltração de combatentes do Hamas dentro do território israelense”, diz Raquel.

A jovem retornou ao Brasil no mesmo voo da Força Aérea Brasileira em que estava Hana: “A ideia da minha volta teve que ser amadurecida pelos meus pais. Mesmo sendo um país em guerra, eu me sentia muito segura lá em Israel. Ainda assim, meus pais me enviaram de volta em um avião da FAB. Porém, eu pretendo retornar para morar em Israel após tudo isso. O que me aflige é não ter ideia quando poderei voltar”.

Misto de sentimentos

O clima do oitavo voo da Operação Voltando em Paz foi descrito pelas meninas como um misto de sentimentos:

“As pessoas estavam muito aliviadas e felizes, a maioria era residente de Israel que tinha uma oportunidade de voltar para casa”, conta Raquel. Hana teve a mesma percepção sobre os passageiros do voo: “As pessoas estavam tranquilas que estavam voltando para casa, muitas pessoas que moram em Israel tomaram a decisão de voltar para o Brasil, mas ninguém sabia ao certo quando iria retornar para o Oriente Médio”, afirma.

É o caso da professora de escola infantil Débora Gielman, 27, que retornou ao Rio no mesmo voo de Hana e Raquel, com o filho israelense de dois anos e sete meses, e que pretende recomeçar a vida no Brasil. Para trás, além da casa e do trabalho, ela teve que deixar a mãe, de 69 anos, que decidiu ficar em Harish, cidade a 400 metros da fronteira com a Cisjordânia, onde moravam desde 2015.

A decisão de a mãe não retornar foi tomada pela própria no dia da viagem. Débora inscreveu a família para o oitavo voo na FAB e, já no dia seguinte, teve a notícia de que os seus nomes estavam na lista. A mãe de Débora, então, disse que não daria as costas para o país que lhe deu oportunidades. Débora retornou, pois não tinha emprego em Israel e por se sentir mais segura ali.

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