Domingo, 05 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 4 de abril de 2026
A Apple chega aos 50 anos com uma conquista pouco comum para uma empresa: devotos fervorosos, que se assemelham a torcedores de times de futebol ou fãs de artistas famosos. Apesar dos preços praticados no país, o Brasil também tem seus apaixonados pela marca. Além de colecionarem celulares, computadores e outros eletrônicos, eles acumulam histórias de encontros constrangedores com Steve Jobs, o fundador e ícone máximo na maçã.
O cineasta Paulo Machline, 59, teve a chance de conhecer Jobs pouco tempo depois do Macintosh original transformar o mundo da computação — não apenas isso: com apenas 18 anos, ele participou de uma reunião de negócios em Nova York com o chefão da companhia. Parecia um sonho para quem tinha se tornado fã da marca uns anos antes. Mas deu errado.
Machline é filho de Matias Machline, fundador da Sharp do Brasil, que fabricou eletrônicos no país até o final dos anos 1990. Tanto Sharp quanto a Apple tinham um mesmo profissional em seus conselhos, o americano Richard Harrison.
Segundo Paulo, executivo procurou seu pai na metade dos anos 1980, porque a Apple estaria interessada em expansão global e a Sharp era nome óbvio no período para a América Latina — naquela década, a companhia chegou a ter 25% do mercado de terminais bancários do país e tinha infraestrutura de fábricas em Manaus.
— Olhando as projeções, o meu pai sabia que aquilo não era um bom negócio. O grande negócio era fabricar PCs da IBM. Mesmo assim, foi marcada uma reunião com o Steve Jobs para apresentar o projeto. Meu pai me chamou para ir junto, pois tinha sido influenciado pelo meu gosto pela Apple. Foi uma reunião bizarra — relembra Machline.
O encontro foi marcado para uma noite de 1985 no hotel Pierre, em Nova York. Apesar do pouco otimismo, era a única chance de a Sharp virar parceira da Apple no Brasil, pois, na manhã seguinte, Jobs voltaria para a Califórnia. A família Machline decidiu se hospedar no mesmo hotel para evitar imprevistos. Marcada para às 22h, a reunião, no entanto, quase não aconteceu. Jobs enviou uma mensagem avisando que se atrasaria. Chegou às 2 da manhã e manteve a conversa.
— Meu pai botou terno e gravata e descemos para a reunião. Eu estava absolutamente fascinado com a presença daquele cara. Steve Jobs já era uma figura próspera e famosa.
Após Matias falar por 20 minutos, apresentando o projeto, o fundador da Apple mandou uma de suas famosas pedradas verbais.
— Após o meu pai falar do objetivo daquela reunião, Jobs falou: “O Brasil não é um país sério. Eu não acredito na estrutura de impostos do Brasil. E outra coisa, o Brasil é o único país do mundo que pirateou a Apple. Eu não tenho o menor interesse em fazer negócio com o Brasil. Eu não quero nem vender Apple no Brasil”. Foi assim a reunião — relembra o cineasta.
Na época, a Apple tinha iniciado uma batalha judicial contra a empresa brasileira Unitron, que havia clonado o Mac — a disputa envolveu até o governo americano que passou a pressionar o Brasil para vetar as vendas. Após pesar o clima na reunião, o fundador da Apple subiu para o seu quarto, enquanto os brasileiros ainda digeriam o atropelo. Na manhã seguinte, eles voltaram ao Brasil.
— Durante a reunião, o Steve Jobs não me dirigiu a palavra. Somente ao final, ele perguntou se eu tinha computadores e se gostava da Apple.
Aparentemente, a paixão não foi abalada pela frustração. Paulo teve o Macintosh 512 e se tornou testador oficial da gigante entre 1990 e 1996, o que significa que anualmente ele recebia equipamentos da empresa. Ele tem até três unidades do Newton, que foi um grande fracasso da Apple na década de 1990 — parte do acervo pessoal está arquivado em São Paulo.
Não satisfeito com o dispositivo portátil “avô do iPhone”, Paulo também se arriscou a ter outro dispositivo controverso da empresa: os óculos Vision Pro. Precisa gostar. Com informações do portal O Globo.