Quinta-feira, 28 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 28 de maio de 2026
O ex-jogador de futebol Dario, conhecido também como Dadá Maravilha, além de atleta, era um frasista improvável. Num dos seus bordões mais conhecidos, dizia: “Não me venham com a problemática, que eu tenho a solucionática”. Deixando o tom informal de lado, durante décadas, o Brasil cultivou uma espécie de obsessão nacional pelo diagnóstico, porém com pouca resolutividade, a “solucionática” a que Dario se referia. Produzimos relatórios, estudos, planos estratégicos, teses acadêmicas, metas governamentais e reformas desenhadas com riqueza de detalhes. Hoje, com a inteligência artificial, isso se tornou ainda mais evidente: em poucos segundos, sistemas são capazes de reunir dados, identificar gargalos e apresentar soluções sofisticadas para praticamente qualquer área da administração pública. O problema brasileiro, portanto, não é mais descobrir o que fazer. O problema é fazer.
A dificuldade central do país está na implementação das mudanças necessárias. E isso ocorre porque toda transformação relevante, no Brasil, esbarra em estruturas históricas profundamente arraigadas. Nossa herança escravocrata consolidou uma cultura de desigualdade e concentração de poder. O patrimonialismo confundiu, ao longo do tempo, os limites entre o público e o privado. Criou-se uma lógica em que grupos organizados capturam parcelas do Estado para preservar benefícios próprios, independentemente do interesse coletivo.
O resultado é um país onde reformas quase sempre encontram resistência feroz antes mesmo de começarem. Qualquer tentativa de alterar privilégios incorporados ao orçamento público enfrenta corporações organizadas, setores protegidos e estruturas políticas construídas justamente para impedir perdas. Muitas vezes, direitos legítimos se misturam a distorções históricas, tornando qualquer debate racional imediatamente contaminado por disputas ideológicas e pressões de interesse.
A máquina pública brasileira também foi desenhada para dificultar decisões rápidas e coordenadas. A fragmentação partidária transforma a governabilidade em permanente negociação de sobrevivência. O presidencialismo de coalizão frequentemente substitui planejamento de longo prazo por acordos circunstanciais. Soma-se a isso um ambiente jurídico complexo, no qual decisões administrativas podem ser travadas indefinidamente por disputas judiciais, interpretações conflitantes e insegurança regulatória.
Não faltam exemplos. Há décadas o país conhece os problemas da educação básica, da baixa produtividade econômica, da infraestrutura precária, da burocracia excessiva e do desequilíbrio fiscal. Os diagnósticos são amplamente conhecidos. Economistas, gestores públicos, acadêmicos e organismos internacionais apontam caminhos semelhantes há anos. Ainda assim, a implementação avança lentamente, quando avança.
Isso acontece também porque executar reformas exige enfrentar custos políticos concretos. Exige contrariar grupos organizados, desmontar privilégios, rever incentivos e suportar desgaste público de curto prazo em troca de benefícios futuros. Poucos sistemas políticos no mundo são tão avessos ao conflito estrutural quanto o brasileiro. Aqui, frequentemente se prefere empurrar problemas adiante em vez de enfrentá-los diretamente.
A ascensão da inteligência artificial apenas escancara essa realidade. Se antes ainda era possível alegar falta de informação ou limitação técnica, hoje isso soa cada vez menos convincente. A tecnologia tornou o conhecimento mais acessível, rápido e barato. Mas nenhuma IA é capaz de substituir vontade política, liderança institucional, coordenação administrativa e capacidade de execução.
O verdadeiro desafio brasileiro não é intelectual. O país sabe, em grande medida, quais reformas precisa realizar. O desafio é político, institucional e cultural. É transformar conhecimento em ação. Enquanto continuarmos especialistas em diagnosticar e incapazes de implementar, permaneceremos presos ao eterno ciclo nacional de reconhecer problemas sem resolvê-los.
(Instagram: @edsonbundchen)