Sexta-feira, 09 de janeiro de 2026

Campanha tenta sabotar autonomia do Banco Central

A autonomia do Banco Central (BC) foi uma conquista obtida com dificuldade. Sempre sofreu resistência dos interessados em manter a autoridade monetária vulnerável a interferências. A lei garante que o BC é uma autarquia de natureza técnica, cujas decisões devem ser preservadas das pressões políticas. Isso vale tanto para a taxa de juros quanto para medidas destinadas a regular e preservar o sistema financeiro. É, por isso, lamentável a campanha deflagrada contra o BC, tendo como alvo a liquidação do Banco Master, de Daniel Vorcaro.

Não há acaso nas publicações nas redes sociais que procuram contestar as decisões da autoridade monetária e difundir versões favoráveis a Vorcaro, acusado de fraudes bilionárias. Dois influenciadores admitiram ter recebido propostas milionárias para fomentar uma versão segundo a qual o BC foi precipitado ao decretar a liquidação, informou a colunista Malu Gaspar, do Globo. A intenção era pôr em xeque a autoridade monetária. Um deles enviou documentos e mensagens comprovando a oferta de um certo “Projeto DV”. Nenhum dos dois topou, mas a revelação mostra como funciona a indústria de versões do meio digital.

Houve um pico de 4.560 ataques on-line ao BC no dia 27 de dezembro, durante ofensiva contra a liquidação do Master, revelou levantamento da Federação Brasileira de Bancos divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo. Os disparos tinham indícios de impulsionamento por robôs. A tentativa de confundir a opinião pública expõe o vale-tudo que impera nas redes sociais e demonstra a relevância do jornalismo profissional, fundado em princípios editoriais sólidos e compromisso com o interesse público, como fonte de informação confiável para o cidadão. Quem se informa apenas pelas redes se torna refém de interesses escusos.

É ainda mais lamentável que o questionamento à atuação do BC vá além do meio digital. Causa estranheza e preocupação o processo sobre o Master no Tribunal de Contas da União (TCU), sob relatoria do ministro Jhonatan de Jesus. Depois de intimar a autoridade monetária a prestar informações, Jhonatan determinou uma inspeção no BC para analisar documentos que tratam da liquidação.

O estranhamento aumentou porque ele admitiu a possibilidade de reverter parte dos efeitos da liquidação para manter os ativos do banco liquidado — embora aparentemente depois tenha voltado atrás. Jhonatan insinuou haver dúvida a respeito de medidas tomadas por unanimidade pelo BC.

Ora, desde o Plano Real instituições financeiras têm enfrentado situações similares, e o BC tem cumprido seu papel regulador com competência, sem interferência nem alarde. Acórdãos do próprio TCU e do Supremo Tribunal Federal deixam claro que não cabe à Corte de contas avaliar o mérito de decisões da autoridade monetária.

Tais questionamentos, dizem entidades do setor, criam um precedente que fragiliza a supervisão bancária, compromete a previsibilidade regulatória e afeta a confiança na estabilidade do sistema financeiro. Não é à toa que quase 1,5 mil instituições financeiras manifestaram apoio ao BC. A legislação estabelece que ele tem competência exclusiva no caso de liquidações bancárias. Em meio à campanha difamatória, estão em jogo a autonomia da autoridade monetária e a saúde do sistema financeiro — conquistas de que o Brasil não pode abrir mão. (Editorial publicado no jornal O Globo)

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