Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 12 de janeiro de 2026
O estigma em torno do HPV (papilomavírus humano) —vírus transmitido principalmente por via sexual, mas também por contato pele a pele— ainda afasta muitas famílias da vacinação e pacientes dos consultórios médicos, alertam especialistas. A resistência preocupa porque o HPV é o principal causador dos cânceres de vulva e vagina, que levaram a 597 mortes no SUS (Sistema Único de Saúde) entre janeiro e setembro de 2025.
No mesmo período, segundo o Ministério da Saúde, foram registrados 16.559 atendimentos ambulatoriais e 2.161 internações relacionadas aos tumores. Os números correspondem a procedimentos, não a pessoas, e não há dados sobre diagnósticos. Apesar dos registros, o estigma ainda faz com que muitas pessoas deixem de buscar ajuda.
Para Caetano da Silva Cardial, oncologista da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia), “todo tumor ligado ao HPV carrega um preconceito importante”. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), porém, 4,5% de todos os cânceres no mundo (630 mil novos casos de câncer por ano) são atribuíveis ao vírus.
Entre 2022 e setembro de 2025, foram registradas 1.964 mortes por câncer de vulva no Brasil. O Sul concentra alguns dos maiores índices, com 400 óbitos, enquanto o Norte teve 75. São Paulo lidera entre os estados, com 521 mortes. Segundo Cardial, parte da discrepância pode refletir o fluxo de pacientes em busca de tratamento em regiões mais estruturadas.
No mesmo período, o país contabilizou 593 mortes por câncer de vagina, sendo 147 delas em 2025 até setembro. A região Sudeste concentra a maior parte dos óbitos.
Apesar de serem confundidas com frequência, a vulva é a parte externa da genitália feminina, formada por pele e pelos, enquanto a vagina é uma mucosa interna que conecta a vulva ao colo do útero. Segundo Cardial, existe uma confusão entre os termos que é comum não só no Brasil, mas no mundo.
O câncer de vulva é considerado um tumor raro de pele e tem duas principais origens: o HPV, mais comum em mulheres entre 45 e 55 anos, e uma doença autoimune chamada líquen escleroso, que costuma afetar mulheres pré-adolescentes e pós-menopausa, com pico após os 60 anos.
O líquen escleroso não tem causa única definida, mas especialistas apontam que ele está ligado principalmente a um mecanismo autoimune, quando o sistema imunológico passa a atacar a própria pele. Fatores hormonais (como baixos níveis de estrogênio), predisposição genética e traumas repetidos na região também podem contribuir para o surgimento da doença.
A doença causa coceira persistente e, sem tratamento, pode evoluir para câncer em até 60% dos casos, afirma o oncologista. Com acompanhamento e uso de pomadas à base de corticoide, o risco cai drasticamente.
Os sintomas da doença costumam ser inespecíficos: coceira, feridas, úlceras, sangramento ou mudança na cor da pele da região. Por serem queixas comuns a outras condições, muitas mulheres demoram a procurar atendimento. Os sinais também se confudem com os do tumor, que costumam aparecer nos estágios mais avançados do câncer.
Quando identificado no início, com tumores menores que 2 cm e sem linfonodos comprometidos, a chance de cura do câncer de vulva é alta com cirurgia. Nos estágios avançados, quando já há metástase, o tratamento inclui radioterapia e quimioterapia, e a taxa de cura é reduzida.
O câncer de vagina é ainda menos frequente, com cerca de 500 casos por ano no Brasil, e tem como causa o HPV em 90% dos casos, diz Cardial. Ocorre mais frequentemente entre 40 e 50 anos, enquanto as lesões precursoras podem aparecer já a partir dos 30 anos.
Como a vagina é um órgão com rugas e pregas, lesões podem ficar “escondidas”. Muitas mulheres são assintomáticas até que o tumor cresça, quando podem surgir nódulos internos, dor ou sangramento durante a relação sexual, além de sangramento fora do período menstrual.
Tumores menores que 2 cm e restritos à mucosa podem ser curados com cirurgia. Já os tumores mais profundos ou maiores geralmente exigem radioterapia associada à quimioterapia.
O especialista explica que, por serem mulheres mais jovens, o impacto na fertilidade e na vida sexual costuma ser maior que no câncer de vulva. A radioterapia pode reduzir a função ovariana, causar ressecamento, atrofia e até estenose vaginal (estreitamento ou encurtamento do canal vaginal), caso a paciente não mantenha atividade sexual ou não utilize moldes durante o tratamento. Com informações da Folha de São Paulo.