Segunda-feira, 16 de março de 2026

Canetas emagrecedoras, bets e juros desafiam vendas e avanço no consumo de alimentos

Após um ano em que ficou praticamente estacionado, o consumo no varejo de alimentos deve seguir moderado em 2026, mesmo no ano de Copa do Mundo e mais dinheiro na praça com a isenção de Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil.

Com o crédito caro e a pressão da inflação sobre o orçamento familiar, uma expansão vai depender não só dos efeitos da taxa de juros no endividamento dos brasileiros, mas também dos gastos com bets e canetas emagrecedoras, fatores que apertam o bolso do consumidor, aponta pesquisa da Worldpanel by Numerator.

“Em 2026, esperamos o consumidor com mais disponibilidade de renda. Mas se ele botar dinheiro de um lado, terá de tirar de outro. Mesmo sendo ano de Copa do Mundo e eleições, há mudanças de comportamento de consumo sendo construídas. Pode vir um crescimento, mas ainda não temos qualquer previsão”, alerta Daniela Jakobovski, diretora de contas da consultoria.

Ao longo de 2025, o brasileiro adotou uma segmentação das compras no supermercado nunca vista, mostra a edição do terceiro trimestre do levantamento Consumer Insights, da Worldpanel. O consumidor foi mais vezes ao ponto de venda, mas levou menos itens e gastou menos em cada ocasião, embora comprando artigos de mais categorias. Isso é efeito de um malabarismo para fracionar a compra do mês e fazer com que caiba no bolso, explica a especialista.

Em 2026 haverá marcos tradicionalmente positivos ao varejo. Um deles é a Copa, quando o consumo avança a reboque de reuniões entre amigos e familiares, com mais compras de bebidas, carnes e petiscos. Já a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil pode liberar R$ 30 bilhões para o consumo no país.

Alimentos

Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, sublinha o impacto da inflação para o varejo de alimentos:

“A inflação da alimentação no domicílio em 2026, que estimamos em 4,6%, deve ser maior que a de 2025, de 1,4%. Então isso é um fator adicional”, destaca. “E as eleições trarão desafios de volatilidade no câmbio, o que afeta o setor.”

Daniela, da Worldpanel, avalia que se a taxa de juros cair, o efeito da injeção da isenção do IR será maior, mas o crescimento do consumo de alimentos não é certo, diante de fatores ainda difíceis de serem mensurados.

“O avanço no acesso a conhecimento e uso de canetas emagrecedoras é um deles. O consumo de um lar, em comparação ao que registrava antes do início do uso de canetas, em alimentos e bebidas, tem uma redução de até 50%”, destaca Daniela. “Isso vai começar a resultar em categorias mais estimuladas, como já vemos com produtos proteicos. O custo da caneta já obriga o corte de outros custos. E a geração Z tem outros hábitos, mais saudáveis, e vai começar a mudar o consumo.”

A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic, vence neste mês no Brasil, o que deve impulsionar ainda mais esse mercado a alcançar US$ 9 bilhões no país até 2030, contra cerca de US$ 1,8 bilhão agora, segundo relatório do Itaú BBA.

“Com o avanço das canetas, farmacêuticas e farmácias saem ganhando, enquanto fabricantes de alimentos industrializados perdem. Em supermercados, ainda é difícil prever. Eu diria que o impacto final será limitado, porque esse varejo vai substituir produtos e ajustar a oferta”, diz Rodrigo Gastim, analista do Itaú BBA.

De acordo com o relatório do Itaú BBA, redes de farmácias como RD Saúde e Pague Menos e farmacêuticas como a Hypera, que já prepara sua versão nacional do GLP-1, além da indústria de proteína serão os maiores beneficiados por esse movimento, “já as companhias de alimentos ricos em carboidratos, bebidas alcoólicas e varejistas de alimentos podem sofrer”, a exemplo de Ambev, Camil e M. Dias Branco.

Em outros países em que o consumo dessas canetas já é mais disseminado, houve recuo nas vendas de supermercados. Nos Estados Unidos, por exemplo, de acordo com relatório do Santander do fim de novembro, as vendas de mantimentos recuaram em 5%.

Bets e inadimplência

Os gastos dos brasileiros com bets já acenderam uma luz amarela, sobretudo no caso das classes C, D e E, nas quais os alimentos pesam mais no orçamento familiar.

Levantamento feito pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que as bets já têm efeito visível para o varejo de alimentos, tanto pelo efeito no endividamento do consumidor quanto pelo desvio de recursos que iriam para o carrinho de compras.

“A inadimplência do brasileiro não é resultado unicamente de gastos com bets, e está no maior patamar desde 2012. Mas verificamos que cada ponto percentual de aumento nas apostas equivale a 0,4 ponto percentual de alta na inadimplência”, destaca Fabio Bentes, economista da CNC responsável pelo estudo.

As despesas com serviços vêm subindo de forma geral, explica. Mas o gasto mensal dos brasileiros com bets saltou de R$ 426 milhões em dezembro de 2022 para até R$ 3 bilhões em 2025. (Com informações do jornal O Globo)

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