Sexta-feira, 20 de março de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 20 de março de 2026
No último dia 20 de março, no 3º BPE, veteranos, familiares e convidados voltaram os olhos para uma página especial da história militar brasileira: a lembrança do embarque do 20º Contingente do Batalhão Suez rumo ao Oriente Médio, ocorrido há cinquenta e nove anos. A cerimônia não recordou apenas uma viagem distante no tempo. Recordou, sobretudo, uma geração de militares brasileiros que, em plena Guerra Fria, vestiu o capacete azul da ONU para atuar em uma das regiões mais tensas do planeta.
A história do Batalhão Suez começa em 1956, quando o mundo foi sacudido pela Crise de Suez. Após a nacionalização do Canal de Suez pelo governo egípcio, o Oriente Médio mergulhou em uma grave crise internacional que envolveu Egito, Israel, Reino Unido e França. Para evitar a escalada do conflito e restabelecer a estabilidade regional, a Organização das Nações Unidas criou uma força internacional de interposição: a United Nations Emergency Force (UNEF), considerada a primeira grande operação armada de manutenção da paz da história da ONU.
Foi nesse contexto que o Brasil decidiu participar da missão. Nascia então o Batalhão Suez, formado principalmente por militares do Exército Brasileiro. A partir de 1957, o país passou a enviar contingentes rotativos para atuar na região da Faixa de Gaza e nas áreas de separação entre forças egípcias e israelenses.
Durante dez anos, entre 1957 e 1967, o Brasil manteve presença contínua na UNEF. Ao todo, cerca de 6.300 militares brasileiros participaram da missão, distribuídos em vinte contingentes sucessivos. Esses soldados tinham uma tarefa delicada: não estavam ali para combater, mas para impedir que novos combates ocorressem. O trabalho consistia em patrulhar linhas de cessar-fogo, observar movimentações militares, inspecionar posições defensivas e atuar como força de estabilização entre lados historicamente hostis. Era, na essência, uma missão de interposição. Em um cenário marcado por tensões constantes, pequenas escaramuças e desconfiança permanente entre as partes, a presença das tropas da ONU funcionava como um fator de contenção.
Os militares brasileiros logo ganharam respeito pela disciplina, pela capacidade de adaptação e pelo relacionamento equilibrado com as populações locais. Em um ambiente culturalmente distante e politicamente complexo, o Batalhão Suez tornou-se exemplo de profissionalismo e serenidade.
O 20º contingente, cujo embarque agora se recorda, seria também o último da presença brasileira na missão. Poucos meses depois de sua chegada ao Oriente Médio, a região voltaria a mergulhar em guerra aberta durante o conflito que ficaria conhecido como Guerra dos Seis Dias, em 1967. Diante da nova realidade militar, o Egito solicitou a retirada da força da ONU, e a UNEF foi encerrada.
Assim terminava uma década de participação brasileira em uma das primeiras experiências modernas de manutenção da paz internacional. A missão deixaria um legado duradouro para as Forças Armadas do Brasil. O aprendizado adquirido naquele período ajudaria a moldar a tradição brasileira em operações de paz, que décadas depois se projetaria em outras missões internacionais das Nações Unidas.
Recordar o embarque do 20º contingente, portanto, é mais do que um gesto de memória histórica. É também um reconhecimento a homens que, longe de casa e em um cenário de permanente tensão, representaram o Brasil com coragem, disciplina e espírito de serviço.
Em tempos em que o mundo continua a conviver com conflitos e instabilidades, a história do Batalhão Suez lembra que a paz muitas vezes depende da presença silenciosa de soldados que não lutam para vencer uma guerra, mas para evitar que ela comece.
Amílcar Fagundes Freitas Macedo (gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br)