Domingo, 08 de fevereiro de 2026

Capital e natureza: a nova fronteira do investimento

Por que investir na natureza virou estratégia — e não filantropia? A pergunta, que há poucos anos soaria como retórica, hoje é central nas discussões de Davos, nas mesas de fundos bilionários e nas agendas de empresas globais. O que antes era tratado como gesto reputacional, quase um verniz verde para suavizar a imagem corporativa, agora se impõe como decisão pragmática. A lógica é simples: em um planeta que caminha para 10 bilhões de habitantes até 2050, com padrões de consumo cada vez mais intensos, ignorar a natureza não é apenas irresponsável — é economicamente inviável.

O avanço das agendas ESG (sigla para Environmental, Social and Governance) ajuda a explicar essa virada. ESG não é um modismo, mas um método de avaliação que integra critérios ambientais, sociais e de governança às decisões de investimento. Em termos práticos, significa que o retorno financeiro passa a ser medido também pela capacidade de uma empresa em reduzir emissões, respeitar comunidades e manter práticas éticas de gestão. Para investidores adeptos ao capitalismo, trata-se de uma evolução natural: o mercado reconhece que risco ambiental é risco financeiro, e que retorno sustentável é retorno duradouro.

Os números confirmam essa transição. Segundo a consultoria Mercer, o entusiasmo com investimentos sustentáveis diminuiu em termos de volume, mas deu lugar a algo mais sofisticado: o investimento de impacto. Esse segmento cresce a uma taxa anual composta de 26%, com cerca de US$ 1,5 trilhão sob gestão. O foco, antes restrito ao clima, agora se expande para soluções baseadas na natureza e temas sociais. É a prova de que o capital não abandonou a pauta ambiental, mas a incorporou de forma mais pragmática e mensurável.

Exemplos concretos reforçam essa tendência. A Microsoft, por exemplo, estabeleceu a meta de se tornar carbono negativa até 2030 e remover da atmosfera todo o carbono emitido desde sua fundação até 2050. Para cumprir esse compromisso, construiu um portfólio de remoções de carbono que já soma 30 milhões de toneladas, quase metade delas no Brasil. Isso mostra como ativos naturais e o setor florestal brasileiro se tornaram estratégicos para empresas globais. Já a Conservation International, em parceria com o BTG Pactual, desenvolve projetos de reflorestamento que combinam silvicultura comercial com restauração florestal, gerando empregos e biodiversidade em escala comparável ao tamanho da ilha de Manhattan.

Mas há uma dimensão filosófica que não pode ser ignorada. Investir na natureza não é apenas uma questão de retorno financeiro; é também um imperativo ético. O capitalismo, em sua essência, busca eficiência e crescimento. O socialismo, por sua vez, enfatiza justiça e coletividade. A pauta ambiental, no entanto, transcende ideologias: é de todos. Não se trata de escolher entre lucro ou preservação, mas de reconhecer que sem natureza não há mercado, não há sociedade, não há futuro. O desafio é alinhar interesses distintos em torno de um objetivo comum: garantir que o planeta continue habitável.

Essa convergência exige uma mudança de mentalidade. Empresas e investidores precisam compreender que a inação custa mais caro do que o investimento estruturado. Governos devem criar marcos regulatórios que incentivem práticas sustentáveis sem sufocar a competitividade. E cidadãos, como consumidores e eleitores, têm o dever de cobrar coerência e responsabilidade. A transição energética, por exemplo, é um dos pilares dessa agenda, mas não o único. Há frentes igualmente urgentes, como a gestão da água, a agricultura regenerativa e a economia circular. Cada indivíduo, cada organização, tem um papel a desempenhar.

O futuro do planeta será definido pela forma como conciliamos crescimento populacional, hábitos de consumo e uso dos recursos naturais. Se empresas continuarem ávidas por abocanhar mercado sem considerar limites ecológicos, o colapso será inevitável. Mas se o capital enxergar na natureza uma aliada estratégica, capaz de gerar retorno e garantir estabilidade, estaremos diante de uma nova fronteira do investimento. Uma fronteira em que ética e pragmatismo se encontram, e em que o direito de todos se transforma na obrigação de cada um.

Investir na natureza, portanto, não é filantropia. É estratégia. É filosofia aplicada ao mercado. É a consciência de que o capitalismo só se sustenta se tiver raízes firmes no solo que o alimenta. E esse solo, literalmente, é a Terra.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética
Contato: rena.zimm@gmail.com

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