Sábado, 17 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 16 de janeiro de 2026
Os relatos de uma influenciadora digital e de um vereador sobre abordagens para a publicação de conteúdo em redes sociais em defesa do Banco Master, sob acordos de confidencialidade e com promessa de campanhas recorrentes, voltaram a colocar o marketing de influência no centro das discussões sobre práticas, limites e responsabilidades na publicidade brasileira. A proposta apresentada por agências era difundir a narrativa de que o Banco Central teria sido precipitado ao decretar a liquidação da instituição financeira.
Com 1,5 milhão de seguidores no Instagram no perfil @juliemilk, Juliana Moreira Leite, reconhecida como influenciadora de direita, disse ao Valor Econômico ter sido procurada no dia 20 de dezembro por Júnior Favoreto, dono da agência de marketing de mídia e performance Portal Group BR, com sede em Campo Grande (MS). Em áudio ao qual o jornal teve acesso, Favoreto diz que o objetivo era propagar reportagens sobre o caso, citando como exemplo um texto publicado pelo site Metrópoles com o título “TCU vê indícios de precipitação em liquidação do Master e dá 72h para BC se explicar”.
Sem mencionar valores, Favoreto pergunta quanto a influenciadora cobraria para um contrato de três meses, com a produção de oito vídeos por mês dois por semana – e informa que, para obter mais detalhes sobre a empresa, seria necessário assinar um contrato de confidencialidade. Juliana conta que recusou a proposta. “Minha opinião não está à venda para ninguém”, disse, em entrevista ao Valor.
O “modus operandi” relatado por Leite é semelhante ao descrito pelo vereador Rony Gabriel (PL-Erechim/RS), que soma cerca de 1,8 milhão de seguidores nas redes sociais. Segundo ele, seu assessor, Nathan Felipe Ribeiro, foi procurado, também em 20 de dezembro, por André Salvador, da empresa Unltd Marketing, para um trabalho descrito como “gerenciamento de reputação e crise para um executivo grande (…) em uma disputa política”.
Ao buscar mais informações sobre a proposta, o vereador assinou um termo de confidencialidade que mencionava o “Projeto DV” – iniciais do controlador do Master, Daniel Vorcaro, com previsão de multa de R$ 800 mil e prazo de confidencialidade de cinco anos. O parlamentar relatou que foi apenas em uma ligação por vídeo que Master e Vorcaro foram citados nominalmente.
O caso expõe uma fragilidade estrutural da disciplina da influência digital, ainda marcada por ausência de parâmetros claros entre o que é transação comercial legítima e o que se torna eticamente inegociável.
Para a cofundadora da agência Brunch, Ana Paula Passarelli, o limite está justamente no impacto social da mensagem. “Negociável é levar informação correta a partir de um briefing responsável. O inegociável é aquilo que prejudica a sociedade”, disse Ana Paula.
O caso coincide com a lei que regulamenta o profissional de multimídia, sancionada pelo presidente Lula na semana passada. A lei reconhece a atividade dos criadores de conteúdo digital. Ana Paula diz que a nova legislação eleva o grau de responsabilidade. “Quando falamos de influenciadores, falamos de amplificação. E a amplificação exige responsabilidade editorial sobre o que se diz e como se diz”. A lei, observou, abre caminho para a construção de mecanismos de autorregulação do setor, fundamentais para preservar credibilidade, confiança e qualidade do debate público.
Na opinião da cientista social e coordenadora do curso de Sociologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Tathiana Chicarino, a amplificação promovida pelas redes sociais alterou a forma como a opinião pública é construída, ao deslocar o papel central das instituições para o indivíduo. No caso do Master, o problema central, diz Tathiana, é a dificuldade de identificar intencionalidade, enquadramento e interesses por trás dos conteúdos.
“Quando algoritmos passam a funcionar como instâncias organizadoras do debate público, sem mediação institucional clara, cresce o risco de uma crise de confiança não apenas no jornalismo, mas também na política e na própria democracia, com interesses econômicos pouco visíveis, mas determinantes”, explica a cientista social.
Na visão do co-CEO da Spark, uma das maiores agências do setor de influência do país, Raphael Pinho, o marketing de influência já se consolidou como um pilar essencial na estratégia de comunicação das marcas. Mas, assim como ocorre em qualquer área profissional, há aqueles que atuam com excelência e outros que não. Por isso, em alguns casos, as atitudes de uma pequena parcela desse mercado podem arranhar a reputação de um setor formado, em sua maioria, por gente séria e comprometida. As informações são do Valor Econômico.