Sábado, 13 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 12 de junho de 2026
A Secretaria Estadual da Saúde (SES) do Rio Grande do Sul confirmou a investigação de caso suspeito de infecção pelo vírus ebola em um homem de 64 anos com histórico recente de permanência em Uganda, na África. Ao receber atendimento em posto de saúde de Novo Hamburgo (Vale do Sinos), ele foi submetido a medidas previstas nos protocolos nacionais para a doença.
Um teste rápido para malária deu positivo, mas ainda é necessário aguardar os resultados de exames laboratoriais pela Fundação Oswaldo Cruz-SP, instituição habilitada ao procedimento no País. Com base em protocolos clínicos específicos, o idoso foi transferido para o Hospital Conceição, em Porto Alegre – se for realmente constatado tratar-se de ebola, haverá encaminhamento do paciente a instituição de referência em âmbito nacional.
A situação foi imediatamente reportada ao Ministério da Saúde. De acordo com a SES, todas as ações têm sido articuladas em conjunto com autoridades municipais e federais, com foco em cuidados rigorosos de vigilância, assistência e biossegurança.
Em paralelo, indivíduos que mantiveram contato próximo com o idoso desde o seu retorno de viagem são agora alvo de monitoramento por 30 dias, a fim de se identificar precocemente eventuais sintomas. Os serviços de saúde envolvidos no caso receberam orientações sobre medidas de prevenção e controle.
Características
Com mortalidade de 50% a 90% dos casos, a doença pelo vírus ebola (DVE) é uma infecção aguda que se caracteriza por diferentes sintomas e tem como pior cenário um quadro de febre hemorrágica severa. Descoberto em 1976 perto do rio Ebola, na República Democrática do Congo (região central da África), o patógeno destrói o sistema imunológico e os vasos sanguíneos.
O vírus reside originalmente em animais silvestres de floresta equatorial, sobretudo morcegos frugívoros. Sua transmissão inicial ocorre quando humanos caçam, manipulam ou consomem carne de animais infectados. O contágio entre humanos se dá estritamente pelo contato direto indivíduos ou superfícies onde haja sangue, secreções, saliva, vômito ou outros fluidos corporais de infectados – não existe transmissão pelo ar.
Já a incubação (período entre a infecção e o surgimento dos sintomas) varia de dois a 21 dias. Uma pessoa infectada só transmite o vírus após manifestar os primeiros sinais, que surgem subitamente como forte gripe e evoluem para febre alta, cansaço extremo, dores de cabeça, garganta e musculares intensas.
Depois é a vez de episódios severos de vômito, diarreia e dores abdominais, seguidas de forte reação inflamatória, com danos às células que revestem os vasos sanguíneos, resultando erupções cutâneas, comprometimento das funções renais e hepáticas, hemorragias internas e externas. Essa combinação de fatores tende a causar falência múltipla de órgãos.
Já no que se refere a prevenção e tratamento, existem vacinas são utilizadas para conter o avanço de surtos em regiões afetadas. Pacientes infectados recebem cuidados avançados, tais como hidratação venosa agressiva para repor fluidos e regulação da pressão arterial, além do uso direcionado de anticorpos monoclonais específicos contra o vírus.
Quando um caso é confirmado, adota-se o isolamento imediato do doente e uso de equipamentos de proteção individual por profissionais de saúde. A evolução para óbito exige protocolos rígidos de sepultamento, similares aos adotados na época da pandemia de coronavírus.
Recentemente, o Brasil teve descartadas três suspeitas de ebola, doença até hoje sem registro no País (e sem suspeitas no Rio Grande do Sul até o registro em Novo Hamburgo). A primeira foi no Rio de Janeiro, onde um indivíduo procedente de Uganda (África) apresentou sintomas de alerta mas acabou diagnosticado com malária.
Já os demais são de São Paulo. São eles um viajante que retornou da República Democrática do Congo com sinais compatíveis (mas exames levaram à conclusão de que o caso se tratava de meningite) e uma brasileira de 31 anos, que esteve na República Democrática do Congo e apresentou febre combinada a diarreia.
Diretrizes
No início deste mês, a SES emitiu aos serviços do setor no Rio Grande do Sul uma nota técnica com orientações sobre procedimentos de detecção precoce, investigação epidemiológica, notificação e controle de eventuais suspeitas de ebola. Trata-se de iniciativa em caráter preventivo, já que ainda não há casos confirmados no Brasil.
Uma das diretrizes é de que, ao ser identificado quadro compatível com o da doença, a situação deve ser comunicada imediatamente a vigilância epidemiológica municipal. Esta será então responsável por articular ações com autoridades estaduais para organizar o manejo do paciente.
Além disso, o paciente precisa ser imediatamente isolado e o acesso restrito pela equipe assistencial a esse ambiente, até a chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O passo seguinte é a transferência imediata para hospital de referência.
Outro item ressaltado no documento é a identificação dos principais pontos com potencial para entrada da doença no Estado. Na lista estão o Aeroporto Internacional Salgado Filho e Porto Alegre, o porto de Rio Grande (Litoral Sul) e os postos de controle da Fronteira-Oeste, onde o mapa gaúcho faz divisa com Argentina e Uruguai.
(Marcello Campos)