Sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 19 de fevereiro de 2026
A geopolítica contemporânea está marcada por uma mudança de eixo. A China, que há poucas décadas era vista como uma potência emergente, hoje ocupa o centro das atenções globais. O país construiu esse protagonismo com uma estratégia de longo prazo: consolidou sua segurança alimentar e energética, investiu pesadamente em infraestrutura, acumulou reservas de metais preciosos e, sobretudo, garantiu domínio sobre minerais críticos como terras raras, fundamentais para tecnologias digitais e para a transição energética. Essa combinação de planejamento e pragmatismo transformou Pequim em destino obrigatório para líderes de todo o mundo, que buscam previsibilidade em meio às tensões internacionais.
Do outro lado, os Estados Unidos vivem um momento de contradição sob a liderança de Donald Trump. O presidente retomou uma política externa agressiva, marcada por intervencionismo na América Latina e por uma postura protecionista frente à China e à Rússia. Internamente, sua linha de governo é descrita como a estratégia America First, que significa colocar os interesses nacionais acima de compromissos multilaterais.
Essa visão se conecta a uma tradição histórica: nas décadas de 1980 e 1990, os EUA impulsionaram o chamado Consenso de Washington, um conjunto de recomendações econômicas que moldou políticas na América Latina, defendendo privatizações, abertura comercial e disciplina fiscal. Hoje, embora em outro contexto, a lógica de priorizar os interesses americanos sobre os compromissos globais permanece viva.
Internamente, Trump reforça sua agenda nacionalista, mas internacionalmente sua decisão de retirar novamente os EUA do Acordo de Paris representa um retrocesso profundo. É impossível não lamentar: ao abandonar o pacto climático, o país que historicamente foi um dos maiores emissores de gases de efeito estufa sinaliza ao mundo que não pretende liderar o esforço coletivo contra o aquecimento global. Essa atitude soa como um misto de desespero político e captura institucional pela indústria do petróleo, que parece transformar a Casa Branca em um escritório de despacho de seus interesses.
O contraste é gritante. Enquanto a China se posiciona como guardiã de minerais estratégicos e investe em tecnologias que sustentam a transição energética, os EUA dão as costas ao futuro climático, mas ao mesmo tempo disputam ferozmente o acesso a lítio, cobre e terras raras, insumos indispensáveis para baterias, turbinas e veículos elétricos. Essa incoerência revela uma hipocrisia: o governo americano recusa compromissos ambientais, mas não hesita em se engajar na corrida por recursos que viabilizam justamente a transição que ele nega.
Nesse cenário, a Inteligência Artificial emerge como novo vetor de poder. A disputa por minerais estratégicos não é apenas sobre energia limpa, mas também sobre quem controla os data centers, os algoritmos e as regras que moldam mercados e segurança. A corrida pela IA redefine alianças, cadeias produtivas e até a soberania das nações.
A China, com sua capacidade de integrar recursos naturais, tecnologia e política industrial, avança para consolidar uma “fortaleza sistêmica” que lhe dá vantagem nesse tabuleiro. Os EUA, por sua vez, oscilam entre a retórica nacionalista e a necessidade de garantir acesso a insumos críticos para não perder terreno na revolução digital.
Como desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética, não posso deixar de destacar a ironia desse momento histórico.
O país que poderia liderar a luta contra as mudanças climáticas prefere se alinhar aos interesses fósseis, enquanto a China, mesmo com suas contradições internas, se projeta como potência capaz de ditar os rumos da transição energética e da revolução tecnológica. O futuro da geopolítica será definido não apenas por quem controla armas ou territórios, mas por quem domina minerais, algoritmos e a capacidade de oferecer soluções sustentáveis para um planeta em crise.
A história julgará duramente os que viraram as costas para o Acordo de Paris. O que está em jogo não é apenas a competitividade econômica, mas a sobrevivência das próximas gerações. A China entendeu isso ao investir em resiliência e tecnologia. Os EUA, ao se retirarem do pacto climático, escolheram o caminho da incoerência.
E nós, que acreditamos na transição energética como oportunidade de prosperidade e justiça, precisamos denunciar essa hipocrisia e trabalhar para que o futuro seja construído sobre bases limpas, inclusivas e sustentáveis.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética
Contato: rena.zimm@gmail.com