Sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Cinema: Por que um vídeo com inteligência artificial em que Tom Cruise luta contra Brad Pitt assustou Hollywood

O avanço da inteligência artificial (IA) em vídeos alcançou patamares que eram inimagináveis até poucos anos atrás. A última novidade chegou com o Seedance 2.0, o novo gerador de vídeo em IA da ByteDance, empresa chinesa proprietária do TikTok. Em questão de dias, clipes hiper-realistas começaram a circular massivamente nas redes sociais: finais alternativos de séries que nunca existiram, cenas espetaculares de filmes nunca rodados e sequências que parecem tiradas de grandes produções de Hollywood.

A nova preocupação da indústria cinematográfica é uma breve sequência em que versões digitais de Brad Pitt e Tom Cruise protagonizam uma intensa cena de ação no topo de um prédio em ruínas, com um acabamento visual que lembra um filme de grande orçamento.

A obra, segundo o The New York Times, foi criada pelo diretor irlandês Ruairi Robinson utilizando a nova versão do Seedance, o que rapidamente despertou inquietação entre estúdios, sindicatos e criadores diante do avanço vertiginoso dessas ferramentas.

A reação da indústria foi imediata. O roteirista Rhett Reese, conhecido por Deadpool, confessou ao New York Times que o vídeo despertou nele calafrios e alertou que ferramentas como essa poderiam destruir empregos no setor, reacendendo os temores que já resultaram na greve dos roteiristas de 2023, quando milhares de profissionais exigiram limites ao uso da IA em Hollywood.

Os usuários, no entanto, começaram imediatamente a experimentar com o novo software. Em questão de horas, já circulavam na internet finais alternativos de Game of Thrones; lutas inéditas de Dragon Ball Z; novas cenas com Walter White, o protagonista de Breaking Bad; e até mesmo um novo Will Smith enfrentando um feroz monstro de espaguete. Tudo gerado em questão de minutos.

Preocupação

Mas o entusiasmo do público contrasta com a preocupação dos estúdios. A Motion Picture Association, que representa, entre outros, os interesses de Disney, Universal, Warner e Netflix, acusou a ByteDance de permitir o uso não autorizado de material protegido “em grande escala” em um único dia, de acordo com declarações recolhidas pela AFP.

O presidente da entidade, Charles Rivkin, afirmou que o serviço opera sem garantias suficientes contra a violação de direitos e exigiu que a empresa chinesa interrompesse essas práticas.

Em resposta, a ByteDance garantiu respeitar a propriedade intelectual e afirmou que reforçará os mecanismos de proteção para evitar o uso indevido de imagens e conteúdos protegidos.

Como primeira medida, a ByteDance disse ter limitado a possibilidade de gerar clipes com pessoas reais. Mas, como aponta a publicação Futurism, ainda resta saber qual o grau de eficácia dessas restrições – especialmente considerando dificuldades semelhantes que a OpenAI enfrenta com o Sora para controlar usos indevidos em suas próprias plataformas.

Tecnologia

O episódio do Seedance 2.0 soma-se a uma série de avanços tecnológicos chineses que surpreenderam o mercado americano, seguindo os passos do DeepSeek, cujo modelo de raciocínio compete com sistemas como o ChatGPT. Como resumiu Elon Musk no X ao ver um dos vídeos gerados: “Está acontecendo muito rápido”.

Mas a polêmica não acaba aí. Além do uso de rostos reais e cenas verossímeis, o Seedance permite controlar detalhes técnicos como iluminação, sombras e movimento da câmera, aproximando a experiência do trabalho de um diretor profissional.

De acordo com a consultoria suíça CTOL Digital Solutions, o Seedance 2.0 é atualmente o modelo de geração de vídeo mais avançado do mercado, superando em diferentes testes o Sora, da OpenAI, e o Veo, do Google.

Mesmo assim, nem todo mundo está convencido. Heather Anne Campbell, produtora executiva e roteirista de Rick e Morty, afirmou nas redes sociais que, apesar do impacto visual, nada do que foi produzido até agora é realmente comovente ou criativo, descrevendo o fenômeno como um espetáculo passageiro.

No entanto, mesmo aqueles que duvidam do valor artístico reconhecem que será enorme a tentação de usar essas ferramentas para reduzir custos. Como Rhett Reese admitiu, escrever um roteiro poderá acabar ficando mais caro do que pedir um script para uma máquina. E esse é, no fundo, o medo que assola Hollywood: que o avanço dessas tecnologias acabe mudando profundamente a forma como os filmes são feitos, reduzindo o papel dos atores, câmeras e até mesmo roteiristas em parte do processo criativo.

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