Domingo, 13 de setembro de 2026

Cláusulas do contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia da família de Alexandre de Moraes foram revisadas e editadas ao menos duas vezes pelo próprio ministro

O inquérito da Polícia Federal apontou que as cláusulas do contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia da família do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), foram revisadas e editadas ao menos duas vezes pelo próprio magistrado. O acordo previa, entre outros pontos, sigilo integral sobre o contrato e pagamentos mensais de pró-labore no valor bruto de R$ 3.646.529,77.

As edições de Moraes e as 51 mensagens que Daniel Vorcaro enviou ao ministro, reveladas pelo Estadão, pautarão a sessão do STF da próxima terça-feira, quando o plenário vai avaliar se abre uma investigação ou arquiva tudo o que foi revelado sobre a relação entre o ministro e o banqueiro.

Moraes não se manifesta sobre o teor do relatório da PF desde último dia 1,º , quando foram reveladas as mensagens, cujo sigilo foi levantado posteriormente, pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF.

O escritório Barci de Moraes confirmou que o ministro Alexandre de Moraes acessou e editou o contrato. Segundo o escritório, o setor de compliance pediu ao ministro informações sobre eventuais impedimentos legais à contratação pelo Banco Master da banca de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

A primeira edição do contrato atribuída ao magistrado ocorreu antes mesmo de o documento ser enviado a Vorcaro.

Histórico

Como mostrou reportagem do Estadão em julho, Viviane encaminhou a minuta ao banqueiro por seu celular pessoal, em 11 de janeiro de 2024, às 17h23. Na mensagem, ela escreveu: “Prezado Daniel, boa tarde. Conforme conversamos, estou enviando minuta de contrato de prestação de serviços para sua análise. Estou à disposição para qualquer esclarecimento. Abraço. Viviane Barci de Moraes”.

Os metadados do arquivo, intitulado “Mnuta de contrato”, registram como autor um usuário identificado como “Guilherme Benazzi” – administrador do escritório Barci de Moraes – e apontam que a última modificação antes do envio foi feita por um perfil denominado “Ministro Alexandre de Moraes”, às 16h30 daquele mesmo dia – 53 minutos antes de Viviane encaminhar o documento a Vorcaro.

Foi a primeira edição atribuída ao ministro, segundo a PF.

Quatro dias depois, em 15 de janeiro de 2024, às 21h22, Vorcaro devolveu a minuta a Viviane pelo WhatsApp, com marcas de revisão, segundo a investigação. “Boa noite! Segue o documento preenchido. Foi incluída apenas a cláusula I.3. Por favor, nos indique se está adequada. Caso estejam de acordo, combinamos a assinatura! Um abraço”, escreveu o banqueiro.

Edição

Depois da devolução, o documento voltou a ser aberto e modificado em um sistema Office 365 associado ao ministro. Os metadados registram nova alteração feita por um perfil também identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, às 23h04 de 15 de janeiro – cerca de 1 hora e 40 minutos depois de Vorcaro ter enviado a versão revisada a Viviane.

De acordo com a perícia, foi a segunda edição atribuída ao ministro.

Os registros coletados pela PF apontam duas intervenções distintas de um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”: a primeira, às 16h30 de 11 de janeiro, antes do envio inicial da minuta a Vorcaro; e a segunda, às 23h04 de 15 de janeiro, depois de o banqueiro devolver o contrato com alterações e marcas de revisão.

Metadados

Esses registros ficam armazenados na aba de propriedades de documentos manipulados no Office 365, sistema operacional da Microsoft, e reúnem informações técnicas como autoria, datas, horários e histórico de modificações do arquivo.

Além das edições no contrato entre o Banco Master e o escritório de advocacia da família de Moraes, o Estadão detalhou as principais vertentes da relação entre Vorcaro e o ministro, incluindo pedidos reiterados do banqueiro para que o magistrado interviesse junto ao delegado Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para travar as investigações sobre negócios fraudulentos do Master; conversas sobre uma possível saída do banqueiro do País antes de sua prisão; cobranças relacionadas a pagamentos ao escritório Barci de Moraes; e a autorização de cartões de crédito com limite de R$ 300 mil para os filhos do ministro.

Moraes marcou um pronunciamento no plenário da Primeira Turma do STF na quinta-feira (10), mas cancelou a fala minutos depois. O movimento ocorreu um dia após Moraes ser retirado da relatoria do inquérito das fake news pelo presidente da Corte, Edson Fachin, que assumiu o caso. (As informações são do jornal O Estado de S. Paulo)

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