Terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 19 de janeiro de 2026
O nome do ministro da Educação, Camilo Santana (PT-CE), tem ganhado força para a disputa ao governo do Ceará em meio à rearticulação da oposição liderada por Ciro Gomes. O retorno do ex-presidenciável ao PSDB e a movimentação no campo da direita aprofundaram rompimentos entre aliados históricos e colocam em dúvida a reeleição do atual governador, Elmano de Freitas (PT-CE).
Integrantes da oposição e do campo governista indicam que Elmano de Freitas ainda não conseguiu construir uma marca própria à frente do Executivo. Segundo esses interlocutores, o governador também apresenta fragilidades no debate sobre segurança pública.
Camilo Santana deve deixar o comando do MEC após a apresentação de um balanço das ações da pasta referentes a 2025, até março. Ministros que pretendem disputar a eleição deste ano precisam se desincompatibilizar do cargo até abril, conforme determina a legislação eleitoral.
Ele afirmou a jornalistas nesta segunda-feira, 19, que, se sair da pasta, será para atuar nas campanhas de Elmano e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ciro Gomes e Elmano de Feitas não se manifestaram até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.
A interpretação é reforçada pelo levantamento do instituto Paraná Pesquisas, divulgado em dezembro, que indica Camilo Santana na liderança das intenções de voto, com 45%, seguido por Ciro Gomes, com 36,8%. Entre aliados do governo, o desempenho corrobora a avaliação de que o ministro é, atualmente, o nome mais competitivo do campo governista diante da reorganização da direita no Estado.
Em um cenário de confronto direto entre Elmano de Freitas e Ciro Gomes, o ex-presidenciável assume a liderança da disputa com 46% das intenções de voto, contra 33,2% do petista.
Para Paula Vieira, cientista política e pesquisadora do laboratório Lepem da Universidade Federal do Ceará (UFC), o atual cenário é consequência direta do que aconteceu em 2022, quando Ciro Gomes rompeu com o PT no segundo turno da eleição estadual. A especialista pontua que esse episódio acelerou fissuras que, atualmente, se manifestam de forma mais explícita no tabuleiro eleitoral.
“A fragmentação da base aliada e o deslocamento de Ciro para a oposição criaram um novo eixo de forças no Estado. O que vemos, hoje, é a cristalização de um campo oposicionista que busca explorar as lacunas deixadas pela gestão petista, especialmente em áreas críticas como a segurança pública”, afirmou Paula.
Racha político e novo desenho eleitoral no Ceará
Embora Ciro Gomes ainda não tenha confirmado publicamente qual cargo vai disputar em 2026, o presidente nacional do PSDB, Marconi Perillo, avalia que o ex-governador foi levado ao partido para estar na cabeça de chapa do Estado.
Esse entendimento reúne lideranças como o ex-senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), responsável por atrair Ciro ao partido, o deputado federal Capitão Wagner (União Brasil-CE) e o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União Brasil-CE). Eles passaram a defender a construção de uma candidatura única para unificar o campo oposicionista.
Sob condição de anonimato, um assessor próximo à família Ferreira Gomes afirma considerar factível uma mudança no plano governista. Esse cenário será possível se Freitas abrir mão da tentativa de reeleição para viabilizar a candidatura de Camilo Santana ao Palácio da Abolição, caso a pressão eleitoral se consolide.
Na avaliação de Paula Vieira, a força do ex-governador vai além do PT. “No Ceará, Camilo construiu um capital político próprio, que muitos já chamam de ‘camilismo’. Esse movimento é sustentado por alianças regionais e por uma imagem pública positiva”, reconheceu. A pesquisadora aponta que o ministro conseguiu se descolar do petismo mais ideológico, o que ampliou a capacidade de diálogo com setores de centro e, até mesmo, da centro-direita.
Camilo Santana tem descartado uma possível candidatura. Mas em entrevista ao jornal O Globo, reconheceu que isso pode mudar. “Não sou candidato. O Elmano tem sido um grande governador. Ele tem direito à reeleição e está bem avaliado. Mas claro que política é dinâmica. O projeto que está em curso no Ceará tem avançado, com muita dificuldade em áreas como a segurança pública, que é um problema no Brasil inteiro. Mas tem avançado na educação, saúde e geração de emprego”, afirmou o ministro.
Para Capitão Wagner, a influência de Camilo Santana sobre o atual Executivo estadual é, ao mesmo tempo, a sustentação e o desgaste da gestão Elmano de Freitas. Wagner argumenta que o atual governador não conseguiu consolidar autonomia política.
“Hoje, quem manda de fato é o Camilo Santana; o Elmano é o ‘governador de direito’. O ministro é quem escolhe desde o secretário até o presidente da Assembleia Legislativa. O candidato é quem dita as regras no Estado, e eu acredito que essa falta de autonomia é um dos principais fatores de desgaste do atual governo”, disse Wagner. Com informações do portal Estadão.